Sopro e Vida: E saia mais um sínodo: muita teoria e pouca práxis

Lido o documento preparatório do Sínodo – “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão” – fiquei clarificado: mais diagnósticos sociais, culturais e religiosos (e há-os em catadupa), slogans teológicos, lugares-comuns, teorizações, oportunidade para entronizar autores e promotores diretamente envolvidos. Em termos de conteúdo, pouca novidade em relação à Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” ou mesmo à Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”. Quanto ao método e metas não parece ser diferente dos últimos sobre a Família e a Juventude: teorizações.

O problema atual da Igreja não se resolve com diagnósticos, sínodos e documentos, em abundância e repetitivos. O busílis vem da prática pastoral, onde as belas e bem-intencionadas proposições facilmente se veem traídas e desmentidas nas ações. De que vale consultar e receitar sobre o óbvio se o paciente não estiver (pre)disposto à conversão para uma práxis diferente?

No dia-a-dia o que mais surpreende boa parte do Povo de Deus é a pluralidade de decisões/ações para situações idênticas. A arbitrariedade pastoral (facilitismo, clientelismo, oportunismo, negligência, desinteresse, falta de fé) alimenta dúvidas e interrogações: Se a Igreja é uma só (una, católica) porquê tanta variedade de decisões? Por que motivo uns pastores (padres, bispos) fazem/permitem e outros não? Que princípios (valores, interesses) suportam as decisões tão díspares de uns e outros?

Pouco adianta promover aglomerações físicas sob uma enorme distância afetiva, pastoral ou vivencial. Sentar-se à mesma mesa não significa estar em comunhão… Judas é prova cabal. Não é líquido que a organização de reuniões e encontros sirvam a “cum munus”, “comunhão”: “serviço/dívida com”. Fazer comunhão não é “acenar com a cabeça” ou “assinar de cruz”, mas, sobretudo, “serviço comum”, “ação conjunta”. A “participação em missão” em vez de rótulos, títulos, carreirismo ou carneirismo, precisa de discípulos (aprendizes do/com o Mestre) e de fiéis (ao Evangelho e aos valores humanos universais). A comunhão não pode servir para entronizar, ao invés de irmanar as muitas vivências e histórias.

Uma Igreja de “comunhão, participação e missão” depende mais de coerências do que de sínodos. A primeira para com o Evangelho: escutar, compreender (interiorizar), viver. A segunda para consigo mesmo: vive o que acreditas, acredita ser possível vivê-lo. A terceira para com os professantes da mesma fé: «Vede como eles se amam!» (Tertuliano, Ap. 39). A quarta para com todos os seres humanos: «Tudo quanto quiserdes que os homens vos façam, assim fazei também vós a eles; pois esta é a Lei e os Profetas» (Mt 7, 12).

(P. António Magalhães Sousa)

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