Novas orientações para a(s) igreja(s): cabe aos pastores agir a reboque?

O Governo anunciou que a 1 de Outubro o país entra em nova fase de desconfinamento: «restaurantes sem limite máximo de pessoas por grupo, deixando de ser obrigatório certificado digital ou teste negativo para lhes aceder; fim dos limites em matéria de horários; fim dos limites de lotação, designadamente para casamentos e batizados, comércio e espetáculos culturais; a utilização de máscara continua a ser obrigatória em transportes públicos, transporte aéreo, estruturas residenciais para pessoas idosas, hospitais, salas de espetáculos e eventos e grandes superfícies; eliminação da testagem em locais de trabalho com mais de 150 trabalhadores.»

Seria expectável que a Conferência Episcopal (ou o bispo diocesano como pastor próprio), desse de imediato orientações para as igrejas, sobretudo para a celebração da Eucaristia que, até novos achados teológicos e/ou espirituais, é “fonte e ápice de toda a vida cristã.” (LG 11) Vamos esperar até quando? «De acordo com o evoluir da situação e as orientações das autoridades de saúde, serão tomadas novas orientações na reunião do Conselho Permanente de outubro e, sobretudo, na Assembleia Plenária de 8-11 de novembro.» (14.09.2021) É triste que o Povo de Deus continue limitado no acesso às igrejas, refém da agenda dos pastores, porventura demasiado preenchida ou votada a outras prioridades.

Também me surpreende o silêncio – acomodado e conivente – de padres e fiéis. Os dirigentes e adeptos desportivos exigem o regresso do público aos estádios com lotação completa; os donos de bares e discotecas exigiram e já podem abrir sem condicionamentos de maior; os restaurantes deixaram de ter limitações; cinemas e espetáculos culturais ficam apenas sujeitos ao uso de máscara… nas igrejas, os fiéis não mexem uma palha (serve sempre para prolongar e justificar a ausência) e os pastores, como quase sempre, chegam atrasados (arrastados) à(s) nova(s) realidade(s). Deus será sempre o parente pobre de uns filhos demasiado ricos, empertigados, enrijecidos.

Os últimos tempos (e não só por causa da pandemia: cheias, vulcões, tempestades, incêndios) provaram/confirmaram a fragilidade e voracidade da natureza e da humanidade. Um vírus invisível acabou por ceifar milhões de vidas, adiar/matar projetos e investimentos, abalar empresas e economias sólidas, semear um rasto de dor, desespero, angústia, impotência, solidão, morte. Nunca será tarde para nos darmos conta do quão pequenos e débeis somos capazes de ser…

Para nós – putativos crentes – talvez fosse oportuno reconhecer que sem Deus facilmente caímos no abismo das nossas certezas, seguranças, vaidades e verdades. Se “o homem cresce quando se ajoelha” só nos fazia bem um banho de humildade e abandono em Deus. Apesar de invisível aos nossos olhos, continua a ser Ele a fonte da Vida e Luz, da Paz e Alegria, da Esperança e Eternidade, do Bem e Amor. Do mesmo modo que o vírus invisível nos apavorou pelos sinais/efeitos da sua presença, também podemos ser salvos/destruídos pela presença/ausência do Deus invisível.

Adiar, desprezar ou mascarar o regresso a Deus mais que vacina rejeitada é morte anunciada. Adiar, desprezar ou mascarar a abertura ao Invisível arrasta-nos fatalmente para outros vírus, outras neuroses, outros deuses ou endeusamento próprio até voltarmos, mais cedo ou mais tarde, a bater com a cabeça na dura realidade e tomar consciência de que somos pó e, sem Deus, ao pó voltamos. Também cabe aos pastores lembrar isto, sobretudo com ações/decisões proféticas e não apenas a reboque do barregar das ovelhas e/ou cabritos. Ou, então, teremos de decidir diferente(s), mesmo que em desobediência ou contracorrente.

P. António Magalhães Sousa

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