Um Ideal de Homem

Hoje, 19 de Novembro, é dia do homem. E quando digo “homem” não estou a falar apenas de um conjunto de características comportamentais, temperamentais e de preferências que são culturalmente produzidas e condicionadas. Aquilo que os teóricos do feminismo intersecional e queerismo chamam de “género”. Quando digo “homem” estou a falar de um ser humano adulto de sexo masculino. Simples não é? Hoje, supostamente, comemoram-se estas pessoas. Mas o que há de especial nestas pessoas que mereça comemoração?

É um facto que são os homens que mantêm tudo a funcionar. São eles que fazem passar água nos canos, que mantêm os quadros de eletricidade operacionais, que erguem prédios e casas, que fazem instalações de internet, que puxam redes em frotas pesqueiras, que entregam as nossas cartas, que arranjam os nossos carros, que conduzem os camiões que abastecem os hipermercados, que recolhem o lixo de manhã, que fazem a manutenção de jardins e piscinas, que lavam janelas em arranha-céus, que patrulham as nossas florestas, conduzem os comboios em que viajamos, etc, etc. Todos os luxos, todas aquelas coisas que tomamos por garantidas nas nossas vidas facilitadas, dependem desta imensa massa de homens. Acho que só por isto há motivo suficiente para celebrar este dia. Esta tendência profissional acho que diz qualquer coisa das inclinações dos homens. Gostam de trabalhar com as mãos, de trabalhos tendencialmente físicos e orientados para objetos. Muitos destes trabalhos são solitários, outros fazem-se em equipa; mas esta equipa não é suposto ser um clube de convívio onde se trocam simpatias e amizades, é sim um maquina organizada em que cada parte sabe o que tem de fazer e a comunicação, pelo menos em tempo de trabalho, é estritamente telegráfica (curta e informativa). Imagine-se o que seria de uma equipa de pescadores no Mar de Bering ou de operadores numa plataforma petrolífera no meio do Pacífico sem esta automatização de grupo e comunicação eficiente.

Ninguém ensina estes homens a serem assim. Eles nascem com essa tendência e o mundo depois dá-lhes espaços para essas tendências serem desenvolvidas. Acho que estas tendências, devidamente orientadas podem-se tornar virtudes. Uma delas é a orientação para o trabalho e a produção. Elementos desta virtude complexa são a industriosidade, a autodisciplina, a diligência, o sentido de dever, e a necessidade de ordem. Outra virtude que se pode extrair daqui é o estoicismo. Esta virtude pode ser decomposta em ser-se lacónico, claro, honesto, sóbrio, frugal, paciente, fleumático e longânimo. E por fim pode-se mencionar também a virtude de autonomia ou autoconfiança, que talvez não sejam as melhores traduções do termo self-reliance de Ralph Waldo Emerson. Esta virtude consiste, basicamente, em não ser um catavento das circunstâncias e influências; e, por outro lado, ser-se capaz de autoaperfeiçoamento, autodidatismo e autocontentamento. A satisfação com a nossa vida depender do afeto, boa-opinião e benefícios materiais que os outros nos podem providenciar é a raiz de todos os males.

Todas estas virtudes, obviamente, têm de estar delimitadas pela Lei de Deus e têm de se manifestar em decisões e atos motivados por sentimentos obrados pelo Espírito Santo em nós, no nosso coração. A orientação para o trabalho e a produção, sem a santificação do Espírito Santo, degenera em trabalhodependência, competitividade tóxica, destrutividade, zelo fanático, totalitarismo opressivo e asceticismo. O estoicismo pode degenerar em ataraxia, crueldade fria, indiferença, rispidez e niilismo. E por fim a autonomia pode-se perverter em egoísmo desconsiderado, avareza, egocentrismo, melindrosidade, maquiavelismo e hedonismo. A orientação para o trabalho e para produção tem de se manter fiel à caridade e à verdade. O mundo e as pessoas não são para se destruir com vista a fazer mais lucro. O falso testemunho, a caricatura, a difamação, a mentira e a omissão danosa são sempre injustificados. A ordem nunca pode ser imposta à custa da justiça e prudência moral. O estoicismo não pode esquecer os deveres especiais que temos para com a família, os amigos, a igreja e a humanidade em geral. As pessoas são seres sentimentais e afetuosos, e ainda que essas sensibilidades tenham de ser temperadas com racionalidade e Lei, elas não podem ser completamente descartadas e arrumadas a um canto – isso seria o mesmo que nos desfazermos da nossa humanidade (aquilo que nos faz pessoas). A autonomia, de igual modo, tem de vir acompanhada com a consciência de que somos seres sociais, à imagem de Deus que vive em sociedade Trinitária. Nenhum homem é uma ilha. Vivemos em constantes relações, relações essas que nos permitiram edificar civilizações que facilitam as nossas vidas – precisamente aqueles agregados sociais onde vive a massa de homens mencionada acima. O bem-estar dos outros é também importante e não deve ser continua e grosseiramente negligenciado a fim de beneficiar o nosso. Além disso as opiniões dos outros devem ser levadas a sério quando apresentadas de forma convicta e genuína. Ter autonomia nas nossas posições não se traduz em menosprezar e escarnecer as dos outros. Ser resistente às avarezas da vida também não se traduz em ser incompreensível com as fraquezas dos outros.

E há homens que satisfazem estes requisitos, que realizam este ideal nas suas vidas? Não sei. Por ser um ideal talvez não haja homens reais que o exemplifiquem. Mas isso é irrelevante para a validade do ideal. Um bom ideal é aquele que se coaduna com a Lei de Deus e que, embora inatingível globalmente, aqui e ali, neste e naquele momento, neste e naquele aspeto particular, conseguimos-lhe tocar. E se metermos a fasquia a este nível, isto é, ao nível de homens que persistiram em muitas destas virtudes ainda que falhassem noutras, ou falhassem pontilhadamente por fraqueza de vontade naquelas em que persistiram; aí creio que podemos encontrar alguns. Vem-me à mente, por exemplo, Gustavo Adolfo II, o Leão do Norte, Rei da Suécia entre 1611 e 1632. Traduzo uma pequena passagem de uma biografia sua:

Tem sido comentado com consistência, que nenhum rei alguma vez tomou pelas suas mãos as rédeas da governação em circunstâncias mais desfavoráveis; e podemos acrescentar, que nunca tamanhas dificuldades foram superadas mais rapidamente. Ele tinha de, por assim dizer, conquistar a sua herança, e comprar o seu direito ao trono com o seu sangue. Ele nunca desembainhou a espada num espírito de conquista, nem por mero amor à Guerra; o interesse da sua pátria era o seu único motivo de ação; ele fez guerra apenas para trazer a paz. Severamente repreendia qualquer ato de vingança; deu o exemplo de coragem em combate, e de generosidade e magnanimidade depois do triunfo e a vitória. Era alvo de cuidados e preocupações dos seus soldados, mas não lhes tolerava qualquer libertinagem, e insistia num cultivo estrito de bons modos e religião nos acampamentos. O culto e a oração eram regulares – de manhã e de tarde, todo o exército dobrava o joelho diante de Deus e reverentemente implorava pelo seu auxílio e favor. O próprio rei estava por todo o lado; encorajando e aconselhando ali, puxando para cima com uma mão auxiliar acolá, marchando à frente no meio de uma competição sangrenta, e segurando a picareta nas trincheiras. Enquanto mantinha a disciplina entre os seus soldados acabou com o bastinado [tortura em que se prendem os pés para depois serem açoitados violentamente] como um castigo, e assim mostrou-se como ainda mais zeloso pela dignidade da humanidade do que algumas nações civilizadas de hoje. Era também prudente como era bravo, sempre se rodeando dos conselheiros mais sábios, e consultando cada um dos seus estamentos antes de entrar em qualquer empreendimento público.

A sua energia e capacidade de resistência eram deveras incríveis. Quando doente ou ferido nunca se ouvia um queixume, nem nunca era avistado a cuidar de si mesmo. Durante a campanha russa foi atacado por uma febre intermitente, mas, longe de ficar de cama, entretinha-se a esgrimar com um dos seus oficiais, e entregou-se ao desporto com tal ardor que rebentou numa transpiração profusa que acabou por conquistar a febre. Louis David Abelous (1828-?), Gustavus Adolphus: Hero of the Reformation.

Por João Miranda (BA e mestrando em filosofia, congregante da Igreja Cristã Presbiteriana de Portugal)

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