Resolver conflitos com atenção espiritual

TESTEMUNHO

O objetivo de nossas vidas não é contornar conflitos e sair ileso, mas nos envolvermos com eles e resolvê-los com atenção espiritual

Os conflitos revelam o que é importante para nós. Às vezes estou em conflito porque descobri algo que não sabia que me importava muito. Alguém muda os móveis no escritório e percebo por que gostava mais da disposição anterior; alguém coloca uma mensagem de média social que me enfurece por algum motivo até então não considerado; alguém fala alguma coisa do meu país, minha religião, minha política, minha língua, minhas prioridades e muitas outras coisas que supõem centenas de anos de ressentimento que carrego em mim.

O conflito é uma informação poderosa; e essas informações poderosas podem ser difíceis de reconhecer, difíceis de processar, difíceis de aceitar, de aprender ou de agir. O conflito pode dizer muito sobre nós mesmos, e pode-nos dizer muito sobre Jesus. Ele mostra-nos por que não devemos temer.

Ouvir atentamente um grupo de discussão significa obter um vislumbre peculiar dos desejos e ansiedades desse grupo. Você também aprende suas tácticas, alianças, ameaças, o que estão dispostos a fazer para vencer e o que lhes acontece quando sentem que perderam. Você também percebe o medo e a habilidade. Uma pessoa pode demonstrar a capacidade de contornar ou reformular um argumento, ou suas alianças, ou sua falta de vontade de se envolver, inclusive seus sentimentos em relação a compromissos.

O que significa prestar atenção espiritual e moral aos conflitos de nossas vidas? Muita energia religiosa parece ser gasta imaginando vidas religiosas livres de conflito: Adão e Eva no paraíso; Jesus manso em uma manjedoura; os santos mais focados em sua pureza do que em suas políticas. Você entende a foto desta notíca: Judas beija Jesus, no momento da traição.

Mas isso trai a literatura bíblica e a condição humana. O objetcivo das nossas vidas não é contornar conflitos e sair ileso, mas nos envolvermos com eles de uma maneira que teste, aprimore e evolua nossos impulsos morais em direcção a uma ética de compromisso sério e criativo.

Medo do Medo

Durante anos, tive medo de conflitos. Não só estava com medo de conflitos, mas também com medo do medo — camadas e camadas me impediam de encarar o convite e as informações que o conflito apresentava. Então duas coisas aconteceram. Minha saúde diminuiu e, acidentalmente, aprendi a orar.

O declínio da minha saúde era previsível. Estava trabalhando no ministério religioso, fechado, assustado e ansioso. Não tinha os recursos para expressar as informações da minha vida. Então meu corpo sofreu. Peguei um vírus grave, que afectou o meu sistema imunológico, tornando-o hiperativo, e o vírus não foi embora. Algo estava a chamar a minha atenção.

Aprendi a orar. Acidentalmente. A história real é que eu decidi desistir de minha fé. E, num movimento irónico que estava totalmente perdido para mim, decidi ir a um mosteiro — comunidade de Taizé — para desistir de Deus. Para formalizar minha desistência, decidi voltar à cena da crucificação. E decidi imaginar que eu era uma das pessoas ao longo do caminho da cruz e que tive a oportunidade de dizer adeus ao Deus que não amava mais. Mas naquela oração, Jesus disse algo para mim, e eu lhe disse algo. E estava no meio de um tipo de oração que nunca havia imaginado.

— Decidi que ou você me odeia, ou é hora de parar de me importar – disse.
— Você se importa com o quê? – Perguntou Jesus.
— Eu não sei – respondi.
— Nem eu – Jesus disse.
— Eu não sei o que fazer – falei.
— Eu sei – ele disse, olhando para mim.

Senti que faltava uma coisa nos anos em que me aproximei de Jesus: respeito. Respeito dele para mim e de mim para ele.

Então, bem na tentativa de me divorciar de Deus, encontrei-me conversando com Jesus com inesperado respeito recíproco. O que ele pensava ditava tudo o que devia pensar. Mas estava curioso. Queria saber o que aborreceu Jesus, o que o chateou , o que comoveu. Comecei a ler os evangelhos e a escrever cartas para o Jesus que não conhecia.

Cresci com muitos conflitos à minha volta: o conflito do legado da colonização da Irlanda, o conflito de ser gay, o conflito de me odiar, o conflito de violências que conhecia. Por isso, prestei muita atenção aos conflitos nos evangelhos: a mulher empurrando a multidão, confrontando essas pessoas com suas leis limitantes; os argumentos públicos sobre adeptos religiosos; as diferentes visões sobre como entender o papel dos estrangeiros no território ocupado; perguntas sobre a forma do casamento; argumentos sobre o pecado e os pecadores. Em quem devo tocar? Quem devo permitir que me toque?

Em cada uma dessas interacções, os personagens estavam comunicando informações íntimas sobre suas vidas: as coisas que amam sobre si mesmas; as coisas que se recusam a considerar; os preconceitos sobre suas vidas; as regras que dominam, mas pelas quais nunca gostariam de ser conduzidas; inclusive as leis que quebram.

Numa história, Jesus chega a uma casa. Não nos dizem de quem é a casa, mas é possível que seja dele em Cafarnaum. Jesus tem seus discípulos consigo; e quando chegam lá, pergunta sobre o que estavam discutindo ao longo do caminho.

A questão em si é intrigante. A palavra grega para perguntar é dialogizomai, da qual obtemos a palavra diálogo. Se Jesus dissesse: “Que dialogais um com o outro pelo caminho?”, A cena inteira teria um sabor diferente. No entanto, os tradutores são unânimes em afirmar que a melhor tradução para o português é discussão, não dialogar.

De qualquer forma, você pode ler o resto da história. Os discípulos estão calados porque têm vergonha; eles têm discutido sobre quem é o melhor.

É fácil pensar que conhecemos a substância desse conflito, mas vale a pena fazer uma pausa por um momento. O que significaria ser o maior? Aquele que passou mais tempo com Jesus? Quem foi mais elogiado? Aquele que era o mais forte? Aquele com o maior insight político? Aquele que mais se parecia com ele? Aquele que era o melhor em discutir? Estes são  devemos assumir  homens discutindo. Eles estão discutindo sobre tamanho, a força, o corpo? Em qualquer grupo, sempre há tensões sobre o maior, e cada grupo tem seu próprio critério para definir quem o seja. A comparação é como uma faísca para a mecha do conflito. Uma vez iniciado o jogo de comparação, é improvável encerrar até que acabe de alguma forma  levando-nos à agressão, à exclusão, ao julgamento e à redução; nesse jogo de determinar de uma vez por todas quem é o perdedor.

Porque é isso que está acontecendo numa discussão sobre o maior. Por trás de tudo, também há uma discussão sobre quem é o menor.

Os evangelhos às vezes prestam muita atenção à linguagem corporal. Nesta cena, vemos Jesus sentado. O que é isso? Um convite para um exame atento de seus vícios competitivos? Possivelmente. Provavelmente, é uma indicação da postura de idosos reverenciados em muitas culturas. Os discípulos teriam sentado abaixo dele com toda a probabilidade. Então, a linguagem corporal deles mudou; são chamados de uma multidão de homens zombadores para uma postura de humildade e hierarquia (às vezes a hierarquia  quando é possível confiar  tem suas funções). Então, a coisa mais surpreendente acontece: Jesus apresenta uma criança.

A propósito, essa é uma das partes mais ricas da história. De onde veio a criança? Alguém dirá  é claro que sim  que essa criança é de Jesus. Ou talvez fosse um filho de um vizinho, ou um sobrinho ou sobrinha, ou um filho da casa. Se esta é a casa de Jesus, isso indica que a casa de Jesus era uma casa pela qual as crianças passavam, prontas para serem incluídas em uma parábola explicativa.

De qualquer forma, uma criança é apresentada. E a criança é abraçada. A criança é a personificação física do exacto oposto da grandeza. Qualquer que seja a medida mundana de grandeza, essa criança não é óptima. A criança é pequena. A criança é impotente. A criança pode não ser fofa. A criança é uma criança, longe dos jogos de poder dos homens. Ao ouvir uma discussão sobre a grandeza conduzida pelos homens, Jesus fá-los sentar para aprender e depois enfrenta-os com um outro independente, que encarna o oposto do que os consumia. Essa criança perturba a economia de eminência que tem sido sua obsessão. Quando ouço as pessoas dizerem que a teologia deve ser objectiva, não subjectiva, penso em como Jesus interrompeu a objectividade. Não podemos comentar casos únicos, dizem empresas e governos. Contudo, Jesus parece dizer que só comenta casos individuais, caso contrário, não haveria sentido. Ele fala sobre hospitalidade, vincula-a à virtude, liga esta à noção de valor e valor à grandeza.

Reenquadrando a imagem

Exercitando-me em resolução de conflitos, ouvi a frase “reenquadrar” repetidamente. Vale a pena pensar nessa palavra de maneira tangível. Quando se pega uma obra de arte e a reenquadramos, isso pode ajudar o espectador a ver o que tem ali. Talvez a moldura capte uma cor até então escondida, oculta no centro do trabalho. Talvez o quadro seja grande o suficiente para mostrar mais da foto. Uma foto recente de um partido político na Irlanda mostrou seus representantes sentados com uma Pessoa de renome. Alguém no Twitter  sempre o Twitter  mostrou o original. Mostrou representantes de duas partes opostas sentadas com uma pessoa de renome. A foto foi reenquadrada e cortada. Liberte-me, o conflito chama; mostre as partes inconvenientes.

Conflito é informação, e muitas vezes não desejamos que o conflito revele a informação. Assim, contamos a história que torna nosso colega, nosso chefe, nosso bispo ou os leigos irrelevantes, até ridículos. Caricaturamos os indivíduos para que o ouvinte da história do conflito saiba imediatamente o que um bom ouvinte deve saber: quem é a pessoa boa e quem é a pessoa má.

Não me interpretem mal  é divertido. Está no centro de todas as boas histórias sobre “meu chefe é um idiota”. Mas as histórias nem sempre dizem a verdade; nós sabemos isso. Os Evangelhos sim. Lembra de Judas?

  • “Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que o traiu” (Mt 10, 4);
  • e “Judas Iscariotes, aquele que o entregou” (Mc 3,19);
  • e “Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor” (Lc 6,16);
  • “E isto dizia ele de Judas Iscariotes, filho de Simão; porque este o havia de entregar, sendo um dos doze.” (Jo 6,71).

Existem outros Judas nos Evangelhos  um deles é parente de Jesus (Mc 6,3)  e há um seguidor chamado “Judas (não o Iscariotes)” no Evangelho de João (14,22). Estamos preparados para odiar essa pessoa. Iscariotes tornou-se um palavrão em algumas línguas, e certamente não é usado como elogio em muitas.

Desde a introdução de Judas, somos levados a um ponto de vista sobre ele. O que Judas diria? O que faria? Conhecemos parte da história, mas pouco nos lembramos dela. Parece-me que Judas era um homem que procurava escalar conflitos. Procurou provocar um aumento do conflito com os ocupantes romanos. Ele não estava sozinho. Os discípulos no caminho de Emaús contaram a um estranho a história de seu lamento, decepção e choque que Jesus havia fracassado em seu projecto de conflito pela liberdade: “Mas esperávamos que ele fosse o único a redimir Israel” (Lc 24,21).

Judas costuma ser considerado um personagem faminto por dinheiro, mas ele não era faminto por dinheiro. João diz-nos que Judas roubou da bolsa (12,6), mas não tenho certeza se acredito nisso. Que evidência há no texto de que os autores são narradores confiáveis das motivações de Judas quando o apresentaram sem considerar seu ponto de vista na história? Mateus é quem desfaz tudo. Mateus está preocupado com a justiça, particularmente a justiça narrativa. Ele introduz a genealogia de Jesus, nomeando 42 homens e cinco mulheres, e ele  sozinho entre os evangelistas  termina a história de Judas assim: “Quando Judas, que o havia traído, viu que Jesus fora condenado, foi tomado de remorso e devolveu aos chefes dos sacerdotes e aos líderes religiosos as trinta moedas de prata” (Mt 27,3).

A palavra arrepender só foi usada algumas vezes em outras partes do Evangelho de Mateus. Duas vezes Jesus pede que as pessoas se arrependam por causa da proximidade do reino (3,2 e 4,17) e duas vezes Jesus usa a palavra ao falar de cidades cujas políticas precisam mudar (11,21 e 12,41).

A visão de Mateus parece diferente. A palavra arrepender-se é rica: a palavra usada no grego é metanoia, o que significa mudar de ideia ou mudar de direção. Judas não se importava com o dinheiro  ele trouxe as 30 moedas de prata de volta. Judas não queria que Jesus fosse condenado  isso o levou a por fim a si mesmo. Às vezes, o conflito pode ser intensificado para nos distrair de uma história mais profunda, uma história mais verdadeira, uma história mais inconveniente.

O conflito é uma economia peculiar. Algumas pessoas usarão conflitos contra um grupo para escalar mais conflitos com outros. No evangelho de João, uma mulher está sendo levada para ser apedrejada porque foi considerada prostituta “no próprio ato de cometer adultério” (8,4). Que notavelmente conveniente. Essa coisa toda parece tão surpreendentemente conveniente que acho que é uma configuração. De qualquer forma, alguns homens estão prontos para encenar o conflito final  assassinato  contra essa mulher, a fim de escalar um conflito entre eles e Jesus.

Aqui é onde a linguagem corporal entra novamente: a mulher conhecia a linguagem corporal das pedras. Eles estavam quase contra ela. Jesus também conhece a linguagem corporal. Ele se agacha. Diante de uma multidão de homens sendo reduzida a um sentimento primordial de pertencimento, ele vê uma multidão se exaltando. Jesus fez um gesto. Ele se agachou. O que estava escrevendo?

Diante do conflito, Jesus se torna menor e faz algo que ninguém mais pode ver. O conflito é a busca da curiosidade. Quando a curiosidade entra numa multidão de pessoas enfurecidas, algo pode mudar. Jesus poderia estar rabiscando, poderia estar escrevendo pecados, poderia estar escrevendo uma pergunta interessante  onde está esse suposto homem? – ou poderia estar apenas demonstrando que o drama do conflito desses homens não era o drama que eles pensavam. Ele fez uma pausa. Chamou a atenção, levantou-se, falou e se agachou novamente.

Os homens vão embora; Jesus fica e fala com a mulher. Mas ele a deixa em conflito  afinal, ela agora sabe do que esses homens são capazes de voltar. E certamente alguns desses homens são conhecidos dela ou parentes. E Jesus diz para ela não pecar mais. Qual foi o pecado dela? Apaixonar-se por um homem que mentiu sobre ser casado? Ser considerada não casada e cortejar um homem? Ser enganado em sexo? Ser um cenário para as obsessões teológicas dos homens projectadas no seu próprio corpo? Eu não sei. Mas eu sei que gostaria de questionar.

A linguagem está no coração do que me move. Para mim, poesia, conflito e religião circulam em torno da mesma coisa: as palavras que dizemos, de corpo e língua. Jesus também gostava de palavras. Ele elogiou a mulher pelas palavras dela. Jesus estava cansado, queria fugir, mas alguém não o deixou. Não dê comida para cachorros, ele diz. E então ele mesmo aprende. Ah, mas senhor, diz essa mulher estrangeira, até os cachorrinhos comem migalhas. Ela pega o insulto de cachorrinhos e vira o diálogo. Ensinando como dar do que transborda do seu coração. Ele para, ouve, muda de ideia. Ele a elogia por suas palavras. E ainda nos lembramos dela.

Alguns conflitos precisam se intensificar para que os detentores do poder percebam que são eles que causam o conflito do qual estão reclamando. Alguns conflitos precisam aumentar para que as pessoas possam colaborar. Alguns conflitos precisam diminuir. Alguns de nós precisamos ser tirados do conflito. Alguns de nós precisamos ser jogados no coração dos conflitos que estamos negando.

Estamos cercados por tantos conflitos. Vale a pena perturbar as águas do conflito com um andarilho aquático encarnado: aquele que acalma tempestades, aquele que revela conflitos onde pensávamos que não existiam, aquele que não era possuído pelo medo do medo. Nossos conflitos revelam algo curiosamente íntimo sobre nós. Essas tempestades nos dizem coisas que não queremos que digam. Passemos sobre estas tempestades como Jesus de Nazaré. Oremos.

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*Pádraig Ó Tuama é poeta e teólogo da Irlanda. É professor freelancer de poesia, teologia e resolução de conflitos em universidades e centros de retiro em todo o mundo.

 

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