Uma Igreja que se confesse culpada

Dietrich Bonhoeffer, nasceu em Breslau – Alemanha, foi professor universitário, e a sua atividade cristã mais saliente foi a luta contra o nazismo. Referindo-se a Hitler como “Anticristo”, foi preso pela Gestapo e executado num campo de extermínio. Como teólogo protestante e pastor foram importantes as reflexões que deixou a toda a Igreja, seja de que confissão professar. Entre os excelentes livros que nos deixou o livro “Ética” é um dos mais importantes. Reconhecendo que a Igreja no seu tempo pouco fez, mais que nada, contra a política genocida do nazismo e do fascismo, tem naquele livro uma expressão de “culpas” e “confissões” do que a Igreja comunitária fez e não fez, e refere uma série de circunstâncias de que as igrejas se devem confessar culpadas e obter a sua redenção, algumas das quais bem atualizadas nos dias que correm.

Diz no referido livro que uma igreja que confessa uma pregação de que há um só Deus e renega os exilados e o sangue dos inocentes e não se lhe impõe, é culpada da não impiedade para com os povos; uma igreja que abusa do nome de Jesus Cristo e tolera, porque se envergonha, e permite injustiças e não se opõe a elas, não conhece Deus; uma igreja que vê os atropelos sobre o dia santificado do Senhor, a reduzida participação no culto divino, é culpada pelo desassossego, intranquilidade e exploração das pessoas; uma igreja que desaprecia os mais idosos, e quase idolatra os jovens, com medo de os perder, é culpada da traição dos filhos aos pais e da sua autodivinização; uma igreja que fica calado perante as arbitrariedades cometidas em favor dos mais favorecidos e contra os débeis e indefesos, é culpada por não encontrar um caminho para a sua defesa; uma igreja que não sabe encontrar uma propositura de relação entre os vários sexos, não tem suficiente força para ser o corpo de Cristo.

E continua dizendo que uma igreja que assiste silenciosamente à exploração e espoliação dos pobres e assiste ao enriquecer c corrupção dos mais fortes; que assiste a calunias e não as denúncias; uma igreja que assiste à insegurança, à guerra, às possessões dos outros por alguns; uma igreja que é assim, desonra os dez mandamentos e não sofre as agruras, como Jesus Cristo sofreu.

Esta Igreja, das várias confissões religiosas, é cúmplice e incapaz de confessar a sua culpabilidade e entrar num processo de conversão. Bonhoeffer, homem culto e que arriscou a vida ao ponto de ser assassinado, pelo seu amado Senhor Jesus Cristo, falava em meados do século passado, sob o cutelo, do nazismo e fascismo, o que hoje se pode verificar pelos “nacionalismos” e “populismos” existentes, mas falava e escrevia quase como se estivesse no dia de hoje. Para nós cristãos e cristãs do século XXI haveremos também de efetuar a nossa confissão, culpabilização e uma atitude de conversão, para que tais atos, que hoje vemos crescer no seio das Igrejas, sejam convertidos numa união com Deus, connosco próprios e com a Criação.

Joaquim Armindo

Pós doutorando em Teologia

Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental

Diácono – Porto – Portugal

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