Todos irmãos, todos iguais na comunidade cristã

Vivemos num tempo em que se defende a igualdade e a mesma dignidade de todas as pessoas. Por isso, justamente, se rejeita e combate toda a forma de discriminação no tratamento e nas oportunidades. É inadmissível haver direitos diferentes para uns e para outros e injustificável o favorecimento deste em desfavor daquele, a não ser por razões compreensíveis e aceitáveis.
A Carta de S. Tiago (2, 1-5), que ouvimos na segunda leitura deste domingo, afirma que “a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo não deve admitir aceção de pessoas”. E dá um exemplo da assembleia litúrgica, para mostrar que não deve haver discriminação entre um pobre e um rico. Todos devem ser acolhidos e tratados com igual consideração, sem distinções pela sua condição social ou económica. E argumenta com a atitude de Deus que “escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino que Ele prometeu àqueles que O amam”. Os cristãos devem assim imitar a Deus. Se houver alguma distinção a fazer, ela deve privilegiar os pobres.
O evangelho proclamado na liturgia de hoje (Mc 7, 31-37) apresenta um caso exemplar da atuação de Jesus: acolhe e cura “um surdo que mal podia falar”, sem exigir nada, simplesmente porque lhe pediram “que impusesse as mãos sobre ele”. Quem assistiu à cena elogiava Jesus e exclamava cheio de espanto: «Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem». Aliás, toda a atuação de Jesus é assim. Acolhe a todos os que se aproximam dele e estão disponíveis para receberem as suas palavras e o bem que ele fazia.
Têm estas palavras e exemplos alguma coisa que ver com as comunidades cristãs de hoje? Não haverá nelas e em cada um de nós alguma coisa a mudar no modo como nos olhamos, pensamos e tratamos uns aos outros?
Às vezes, ouve-se dizer que alguém não é da terra, porque não nasceu ali. Nessa observação, parece haver o pensamento de que aquela pessoa não é bem dos nossos.
Ou então olha-se com desconfiança para os jovens, porque não têm a mesma compreensão, sensibilidade e prática religiosa que nós. E também em relação aos não praticantes habituais, podemos considerá-los menos do que nós que vimos regulamente à missa dominical. E os pobres e os portadores de alguma deficiência são bem recebidos na nossa igreja, é-lhes dada atenção e lugar adaptado às suas condições e desejo de participação? Os bebés, as crianças e os pais que os trazem são recebidos com alegria e compreendidos, mesmo quando a sua agitação e choro nos incomodam? E que pensamos dos que são estranhos à comunidade: estrageiros, turistas ou pessoas de fora que naquele dia vieram à nossa assembleia? Haverá alguém que os faça sentir bem-vindos e que também são dos nossos, porque partilham da mesma fé e da oração comum?
Certamente, poderíamos dar outros exemplos. O importante é que acolhamos a palavra de Deus e consideremos todos como irmãos e iguais. E os façamos sentir fraternamente membros da nossa assembleia e da comunidade cristã. Deste modo louvamos a Deus e seguimos Jesus que nos deu o exemplo e nos mandou amar a todos como irmãos.
Com esta atitude na comunidade cristã contribuímos para construir sociedades mais fraternas e justas, como deseja e recomenda o Papa Francisco com a sua encíclica “Fratelli tutti”, Todos irmãos. A Eucaristia alimenta e consolida a fraternidade cristã.
Durante este mês de setembro, vive-se entre as igrejas cristãs o “Tempo da Criação”, sob o título “Uma casa para todos? Renovando o Oikos de Deus”. Somos todos convidados à oração e ação pela proteção da casa comum”. “Como seguidores e seguidoras de Cristo, de todos os cantos do mundo, partilhamos um papel comum de guardiões e guardiãs da criação de Deus. Percebemos que o nosso bem-estar está interligado com o bem-estar da criação. Nós alegramo-nos com esta oportunidade de cuidar de nossa casa comum e das nossas irmãs e irmãos que nela habitam.”
A mesma atitude de fraternidade para com o nosso próximo, qualquer que ele seja, estende-se igualmente à criação. Acolhemos e cuidamos uns dos outros e igualmente da nossa casa comum. Sem esta harmonia de relação, amor e cuidado não podemos viver bem nem sobreviver.
P. Jorge Guarda * Vigário geral * Diocese de Leiria-Fátima

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