Religiosamente (In)correcto: A Missa foi à praia…

Desta vez levei a Eucaristia à praia, ou melhor, à Esprainha. Uma comunidade do interior do Distrito de Lembá em São Tomé que fica mesmo à beira-mar. Que paisagem maravilhosa!

E claro está, celebrar uma missa ao ar livre e à borda do mar encheu-me o coração de sacerdote. Fez-me lembrar os imensos passos de Jesus à beira-mar com os seus Discípulos.

Cheguei e o altar já estava preparado. Uma mesa muito simples com uma tolha branca. Ao lado uma outra mesinha onde estava uma pequena imagem de Nossa Senhora de Fátima, padroeira daquela população.

Só faltava o povo que, entretanto, foi chegando. Enquanto esperava fui-me deliciando com o barulho e as ondas do mar. Com as crianças a brincarem na água. Com os barcos dos pescadores a lançarem as redes ao mar e fazendo pela vida. De tanto contemplar que me tiveram de lançar um berro para eu voltar ao espaço onde se iria celebrar a grande missa em memória de Nossa Senhora de Fátima.

Tudo pronto para começar. Cânticos bonitos e com as pessoas sentadas em troncos de palmeiras e coqueiros. Para quê bancos de luxo ou de faia ou carvalho! O importante é estar sentado para se escutar a palavra de Deus.

Chegado à homilia tive de fazer uma pausa porque as pessoas foram chegando e já não havia espaço preparado para todos se sentaram. Ninguém ficou de pé. Rapidamente três homens foram rolar mais três troncos e assim todos se puderam acomodar.

Falei de várias coisas, mas há uma que me lembro muito bem e ficou guardada no meu coração de Pastor. Exortei toda a comunidade a saber pensar bem para poder votar em consciência nas próximas eleições presidenciais. Repisei para não se deixarem comprar pelos políticos que só aparecem nestas alturas, muito menos, venderem-se por algumas notas ou moedas. Não é para menos, ao todo, num país tão pequeno, apresentam-se 19 candidatos! É obra.

Colegas meus sacerdotes diriam que falar de política é proibido a um padre. Outos diriam que é melhor nem mexer nesse assunto pois precisamos de todos. E outros argumentariam que as homilias não são para isso.

Pois bem, tenho consciência que é meu dever e minha obrigação de Pastor falar destes assuntos ao nosso rebanho. Um cristão tem de ter um voto esclarecedor e nunca poderá dar o seu voto a políticos corruptos, imorais ou defensores de políticas contra a moral e ética cristãs.

E a missa não terminou sem se terem juntado uns turistas vindos da França e da Bélgica e que rapidamente me disseram, em francês, Sr. Padre que bela catedral ao ar livre. Nada mais acertado.

Não é isto ir às periferias?

 

P. Nuno Miguel Rodrigues * Missionário em São Tomé e Príncipe

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