O SÍNODO E A COMUNHÃO

Estamos todos convocados, pelo Papa Francisco e pelo nosso Arcebispo, para uma “peregrinação” especial, pois “sínodo” significa caminhar juntos, num projeto concreto e exigente de conversão comunitária. O Sínodo prepara-se, celebra-se e vive-se em comunhão!
Comunhão é unidade na diversidade e diversidade na unidade. Cada comunidade cristã é chamada a ser Sacramento de Salvação: transparência do divino no humano, ou seja, sinal e instrumento da comunhão de Deus com os homens e dos homens entre si, pois a causa e a meta da ação de Jesus é reunir os filhos de Deus dispersos (cf. Jo 11, 52) e conduzi-los à unidade com Deus e de uns com os outros.
Constatamos que na Igreja são possíveis dois extremos; e ambos se chamam egoísmos. Verificam-se, respetivamente, quando cada um ou quando só um pretendem ser tudo. Neste último caso, o vínculo da unidade é tão apertado e o amor tão sufocante que não se pode evitar extingui-lo; no primeiro caso, tudo é tão desconexo e frio que o gelo é insuportável. Um destes egoísmos gera o outro. Mas nem um só nem cada um podem ser o todo. Só todos constituem o todo e só a comunhão que gera a unidade de todos forma uma totalidade.
É bom recordar as sábias palavras de um pastor, que foi perseguido e preso, na década de setenta do século passado: “A comunhão é um combate de cada instante. A negligência de um só momento pode despedaçá-la, basta um nada; um pensamento sem caridade, um julgamento obstinadamente conservado, um apego sentimental, uma orientação errada, uma ambição ou um interesse pessoal, uma ação em prol de si mesmo e não para o Senhor. (…) Ajuda-me, Senhor, a examinar-me assim: Qual é o centro da minha vida? Tu ou eu? Se és Tu reunir-nos-ás na unidade. Se vejo que à minha volta, pouco a pouco, todos se afastam e se dispersam, é sinal de que eu próprio me coloquei no centro dos interesses” (Card. F.X. Van Thuan).
Como é importante recordar sempre que a Igreja é dom de Jesus Cristo para ser comunhão; é tarefa confiada aos homens e mulheres para ser missão. A Igreja não se inventa. É gerada, alimentada e guiada por Jesus Cristo que a pensou como semente do Reino de Deus. Para construir o Reino de Deus, pensou-a como comunhão: “que todos sejam um como Eu e o Pai somos um” (Jo 17, 21). De facto, a Igreja nasceu comunhão: na comunidade/modelo de Jerusalém, os cristãos eram “assíduos ao ensino dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do Pão e às orações” (At 2, 42). Tendo nascido comunhão (séc. I); evoluiu para sociedade (séc. IV); assumiu-se como sociedade perfeita (séc. XIII); sentiu-se sociedade minoritária na sociedade (séc. XVIII); sentiu necessidade de conversão ao modelo comunitário (séc. XX).
Efetivamente, o concílio Vaticano II proclamado por João XXIII, propôs a passagem de uma conceção societária da Igreja a uma conceção comunitária da Igreja. Até então a igreja era vista na imagem (piramidal) de uma sociedade de poder que dependia do Papa, dos Bispos, dos Párocos e que, na base, tinha massas de fiéis cuja obediência passiva e temor reverencial mantinha a autoridade e prestígio do clero. O que os animava? Uma fé, às vezes, exaltada, em geral, pouco esclarecida, misturada de superstição e de magia – um costume que atos religiosos periódicos sustentavam. Com Vaticano II, pudemos redescobrir a imagem de uma Igreja comunhão que depende, essencialmente, de Cristo, sua raiz. A partir dessa raiz, devem enxertar-se todos os fiéis que constituem o povo de Deus entendido como comunidade orgânica de salvação. Construída a partir de Cristo, deve pensar-se como comunidade de serviço em que os fiéis leigos têm uma vocação ativa e corresponsável com os ministérios ordenados e todos em comunhão, ao serviço do mundo, das famílias e das pessoas deste tempo.
A Igreja não é povo de Deus, à maneira de uma associação ou sociedade que se desse, a si mesma, a sua constituição e as suas normas de ação. A Igreja é povo de Deus que parte do mistério de Cristo e, por isso, deve-lhe fidelidade histórica e teológica. Por fidelidade histórica, não se pode reinventar nem sair do paradigma fundamental em que nasceu. Por fidelidade teológica, tem que saber reconhecer as situações novas que tem o dever de iluminar, inspirar e assumir.
O n. 4 do Documento Preparatório do Sínodo afirma: “O caminho sinodal desenvolve-se num contexto histórico, marcado por mudanças epocais na sociedade e por uma passagem crucial na vida da Igreja, que não é possível ignorar: é nas dobras da complexidade deste contexto, nas suas tensões e contradições, que somos chamados «a investigar os sinais dos tempos e a interpretá-los à luz do Evangelho» (GS, n. 4).”
Neste “caminhar juntos”, peçamos ao Espírito que nos leve a descobrir como a comunhão, que compõe na unidade a variedade dos dons, dos carismas e dos ministérios, tem em vista a missão: uma Igreja sinodal é uma Igreja “em saída”, uma Igreja missionária, «com as portas abertas» (EG, n. 46). Isto inclui o aprofundamento das relações com as outras Igrejas e comunidades cristãs, com as quais estamos unidos mediante o único Batismo. Além disso, a perspetiva de “caminhar juntos” é ainda mais ampla e abrange toda a humanidade, da qual compartilhamos «as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias» (GS, n. 1).
D. Nuno Almeida, Bispo Auxiliar de Braga
In Diário do Minho, 18.10.2021

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