Sentir Romano: a Palavra e a Música (X)

Saluti a tutti!

 

Celebramos hoje o 29.º domingo do Tempo Comum. Meditando o Evangelho deste dia (Mc 10, 42-45) podemos concluir que ninguém pode pretender “seguir” Jesus sem se baptizar com o Seu mesmo Baptismo, ou seja, sem passar pela humilhação da morte, sem «beber o seu cálice» de sofrimento, confiando no Pai para participar na glória da ressurreição. O Reino de Cristo não tem nada a ver com os reinos da terra, pois não cabem nele a ambição nem a ânsia de poder, nem as honras. Pelo contrário, todos e cada um devem esforçar-se por ser humildes servidores dos outros. Convém que não nos esqueçamos de que «ministério» e «diaconia» são duas palavras – procedente, a primeira do latim e a segunda do grego – que significam ambas «serviço».

A peça musical que propomos para audição é uma Antífona de Comunhão[1] baseada na conhecida expressão do Salmo 8: “Senhor, Senhor nosso, quão maravilhoso é o vosso nome em toda a terra!”

Melodicamente, tem uma construção surpreendente. Está no 2º modo, que não é o mais propício para expressar um sentimento expansivo da alma; o 2º modo tende a apresentar sentimentos de recolhimento. E o que acontece aqui é que esta expressão de grande admiração nunca deixa de ser carregada com uma gravidade própria do 2º. De facto, o uso restrito da escala no Ré fundamental é fundamentado no baixo e marca tudo o que toca com essa impressão. É o assombro perante essa majestade que encerra tudo o que é de Deus, a começar pelo seu Nome. Por outro lado, esta “plenitude” do Nome do Senhor, que está em todas as coisas, leva a uma serenidade do coração espantado mas muito bem estabelecido, estável na contemplação, expressa graças ao contínuo repouso da melodia no seu Ré fundamental. Todas as cadências, mesmo as intermédias, regressam serenamente ao Ré, ao repouso, à segurança sobre a qual tudo está fundado: o Nome.

A entoação, como é frequentemente no caso das antífonas da Missa, dá o tom para o resto da peça. Começa com uma descida ao baixo sobre “Domine”, repousa com um pes alongado sobre o Ré fundamental, e a partir daí estende-se para replicar o Nome do Senhor: “Domine, Dominus noster”. Cada sílaba recebe uma carga de notas que permite, como é o momento da Comunhão, um sabor completo do que tem na boca: o Nome. A segunda frase, por outro lado, parte da nota dominante, e numa expressão de espanto e “admiração” contempla aquele Nome que marca todas as coisas em “universa terra”. Esta admiração, expressa na dominante e aquela ligeira cadência intermédia em “admirabile est”, preserva aquela gravidade com que o 2º modo apresenta as suas melodias. O pronome “tuum” recebe toda a riqueza da melodia dando um salto de uma quarta com um torculus muito alongado, para depois voltar a descansar sobre o Ré. A expressão final em “universa terra” volta ao baixo para abraçar toda a terra, onde está situada, abaixo, em relação ao céu, mas marcada pelo seu Nome. Para abraçar o todo, a melodia pára, prolonga-se com uma tristrofa no Fá “universa” dominante e depois desce novamente ao baixo para se estender sobre toda a terra na palavra terra, combinando um scandicus e um climacus. Este final é um reflexo da atitude reverencial com que o salmista contempla a presença de Deus em toda a sua obra criativa.

 

Desejo um santo domingo e uma boa semana.

P. Bruno Ferreira * Diocese do Porto * Roma

 

[1] A imagem em anexo é cópia do original que se encontra na Bibliothèque Mazarine, Sra. 384, Graduel à l’usage de l’abbaye de Saint-Denis, Paris. A interpretação, ao vivo, foi realizada pela Cappella Musicale Pontificia “Sistina”, na Celebração Papal, em 16 de Outubro de 2011, na Santa Missa pela Nova Evangelização. Ouça a Comunhão ‘Domine, Dominus noster’ em: https://www.youtube.com/watch?v=ZvUaS2oh_pg

 

 

 

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