«Mas os velhinhos, Senhor, porque têm de sofrer assim»?

1. Toda a pessoa é portadora de dignidade, desde o primeiro momento até ao último instante. Alguém contesta?
O problema é que não bastam princípios inquestionáveis nem enunciados grandiloquentes.

2. A realidade está muito longe das formulações. E raramente o que se faz corresponde ao que se diz.
Não obstante as reiteradas — e muito moralizantes — proclamações, ainda há pessoas que são ostensivamente descartadas: os pobres, algumas minorias (sobretudo as que dissentem das maiorias de turno) os sofredores e, em particular, os idosos.

3. O mais infame é verificar que a situação penosa em que muitos (sobre)vivem tem, entre os responsáveis, elementos da própria família.
A tipologia da indiferença está — para nosso pesar — em impiedosa fase de expansão.

4. O abandono, a que muitos são votados, despedaça a alma daqueles a quem devemos o que somos e muito do que temos.
Segundo estudos recentes, 25% dos idosos sente-se afectado pela mais gravosa das epidemias: «a epidemia da solidão».

5. O isolamento social e o suplício psicológico levam a que não poucos desenvolvam sintomas depressivos.
É, sem dúvida, alentador assistir ao aumento de anos na vida. Mas, depois, como suportar que não se invista minimamente na qualidade dos últimos anos da vida?

6. Entretanto e como se não bastasse esta devastadora «epidemia da solidão», ainda somos confrontados com repetidos fenómenos de violência.
Só no ano passado, cerca de 1600 idosos foram maltratados. Destes, 111 tinham mais de 90 anos. Sucede que os maus-tratos vieram de vizinhos, dos cônjuges e — pasme-se! — dos filhos.

7. Como é óbvio, a estes números acrescem tantos que optam por sofrer em silêncio. O género de crimes inclui — para lá da violência doméstica — sequestros, violações e até homicídios!
Como é possível tamanha desumanidade para com aqueles a quem devemos tudo? Caso para reescrever Augusto Gil: «Mas os velhinhos, Senhor, porque padecem tanta dor? Porque têm de sofrer assim?»

8. A discriminação — que aqui assume a forma de «idadismo — é sempre arrepiante.
Infligida aos mais indefesos (e pelos que lhes são mais próximos) é, pura e simplesmente, intolerável.

9. Que pena não percebermos quanta beleza há na velhice: no passo pausado, no andar pesado, na lágrima furtiva, no olhar dorido, nas cãs luminosas, na calvície reluzente, na sabedoria nunca exaurida, na paciência lacrimosa, no silêncio dolente!
A verdadeira beleza não virá mesmo pela tarde?

10. Não «degolemos», pois, em cenários de horror quem SÓ merece o nosso amor.
Nunca faremos pelos nossos idosos — muitos dos quais deixamos sós — o que eles fizeram (e continuam a fazer) por nós!

P. João Teixeira * Reitor do Santuário de N.ª Sr.ª dos Remédios * Diocese de Lamego

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