Magistério: homilias do Núncio Apostólico em Lisboa, nas celebrações de Fátima

Homilia na Celebração da Palavra

Queridos irmãos e irmãs no Senhor

Estou vivamente agradecido ao Em.mo Card. António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, por me haver convidado, na minha qualidade de representante do Papa em Portugal, a presidir a esta peregrinação em que recordamos a segunda aparição da Virgem Maria, que teve lugar em 13 de junho de 1917.

Por uma feliz, e para mim também significativa, coincidência, este ano a sugestiva e intensa vigília de oração de 12 de junho coincide com a memória litúrgica do Coração Imaculado de Maria. Por esta coincidência não posso deixar de evidenciar um dos elementos que caraterizou a aparição de 13 de junho de 1917: na IV Memória, escrita em 1941, a Irmã Lúcia refere um pedido que ela, na idade de 10 anos, fez à Virgem Maria, também em nome de seus primos Francisco e Jacinta, respetivamente de 9 e 7 anos: “Queria pedir-lhe para nos levar para o Céu. Sim – respondeu a Virgem –; a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo. Jesus quer servir-Se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. (…) Eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus” (fim de citação). É o mesmo coração que, como escutamos no Evangelho de São Lucas, guardou, contemplou e amou o Mistério de salvação realizado mediante o sacrifício do seu Filho Jesus. Sabemos que foi uma missão que a Irmã Lúcia realizou com muita intensidade, fidelidade e perseverança, encontrando um importante apoio da parte dos vários Papas. De facto, em 1942 o Papa Pio XII, que havia sido consagrado Bispo no mesmo dia 13 de maio de 1917, estendeu a toda a Igreja a Memória Litúrgica do Coração Imaculado de Maria, estabelecendo que deveria celebrar-se no dia seguinte à Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que – de facto – se realizou ontem. Em 1996, para lhe dar maior importância, São João Paulo II elevou[1]a a Memória Litúrgica obrigatória.

Além disso, em diversas ocasiões, vários Papas, respondendo aos pedidos da Irmã Lúcia, efetuaram, em comunhão com os bispos de todo o mundo, a consagração da Igreja e de toda humanidade ao Coração Imaculado de Maria. Também o Papa Francisco cumpriu um “Ato de Consagração a Nossa Senhora de Fátima” no dia 13 de outubro de 2013, na Praça de São Pedro, no final da Missa por ocasião da Jornada Mariana.

Ao recordar a missão que a Virgem Maria confiou aos três pastorinhos e de maneira particular a Lúcia de estabelecer no mundo a devoção ao seu Imaculado Coração, convido[1]os a fazer própria, nesta noite especial, umas partes do Ato de entrega a Nossa Senhora de Fátima, que São João Paulo II realizou, diante da mesma Imagem da Virgem de Fátima, na Praça de São Pedro, em 25 de março de 1994, no contexto do Ano Jubilar da Redenção, em comunhão com os Bispos de todo o mundo.

« (…) À Vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus! (…)

Mãe dos homens e dos povos, Vós que conheceis todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Vós que sentis maternamente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas, que abalam o mundo contemporâneo, acolhei o nosso clamor que, movidos pelo Espírito Santo, elevamos diretamente ao Vosso Coração, e abraçai, com o amor da Mãe e da Serva do Senhor, este nosso mundo humano, que Vos confiamos e consagramos, cheios de inquietude pela sorte terrena e eterna dos homens e dos povos. (…)

A força desta consagração permanece por todos os tempos e abrange todos os homens, os povos e as nações; e supera todo o mal, que o espírito das trevas é capaz de despertar no coração do homem e na sua história, e que, de facto, despertou nos nossos tempos.

Oh! quão profundamente sentimos a necessidade de consagração, pela humanidade e pelo mundo: pelo nosso mundo contemporâneo, em união com o próprio Cristo! (…) Mãe da Igreja! Iluminai o Povo de Deus nos caminhos da fé, da esperança e da caridade! (…) Ajudai[1]nos a viver na verdade da consagração de Cristo pela inteira família humana do mundo contemporâneo.

Confiando-Vos, ó Mãe, o mundo, todos os homens e todos os povos, nós Vos confiamos também a própria consagração do mundo, depositando-a no Vosso Coração materno. (…) Que se revele, uma vez mais, na história do mundo, a infinita potência salvífica da Redenção: a força infinita do Amor misericordioso! Que ele detenha o mal! Que ele transforme as consciências! Que se manifeste para todos, no Vosso Coração Imaculado a luz da Esperança!» Ámen.

 

Homilia da Missa Internacional

Irmãos e irmãs no Senhor

A proclamação da Palavra de Deus deste XI Domingo do Tempo Comum constitui um novo momento de graça, uma ulterior ocasião para entender como se vai estendendo o Reino de Deus. Trata-se da realização do grande Plano de Salvação que Deus Pai está a realizar mediante os méritos da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo e através da ação purificadora, dinamizadora e santificadora do Espírito Santo.

Na realização deste grande Plano de Salvação teve e continua a ter um papel importante a Virgem Maria, Mãe de Jesus. Ela colaborou eficazmente mediante a sua humildade e docilidade com a Vontade de Deus. De facto, no encontro com a sua prima Isabel, proclama com alegria e gratidão as grandes coisas que Deus Omnipotente estava realizando na sua vida.

Ela, Mãe de Jesus e Mãe da Igreja, continua a colaborar para ajudar-nos a cumprir na história da humanidade a missão que seu Filho Jesus deixou aos seus Apóstolos, de anunciar o Evangelho e de batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É no marco deste grande plano de Salvação que Deus quis que a Virgem Maria interviesse muitas vezes na história da Igreja aparecendo em diferentes Países e Continentes como, por exemplo, no caso de Guadalupe e Lourdes, La Salette e Kibeho. Como Mãe da Igreja Ela ama-nos e toma cuidado de nós; por isso Ela vem ao nosso encontro para nos indicar o caminho de conversão a seguir e os instrumentos a utilizar para ser dignos, um dia, de entrar na Casa de Deus Pai.

Também as aparições que a Virgem Maria realizou aqui em Fátima há 104 anos fazem parte desta missão que a Virgem Maria está a realizar, pedindo também a nossa colaboração. Como pediu aos três pastorinhos, Lúcia, Francisco e Jacinta, que colaborassem para a salvação das almas, sobretudo para a conversão dos pecadores, assim também hoje nos pede a mesma colaboração. Também nos pede que rezemos muito, sobretudo, a oração do Rosário para conduzir as mentes e os corações a uma cada vez maior sintonia com os sentimentos com os quais ela colaborou no grande Plano de salvação.

Somos, portanto, chamados a oferecer a nossa colaboração tendo em consideração a dupla mensagem que nos transmitem as duas parábolas do Evangelho de São Marcos que acaba de ser proclamado: a parábola da semente de trigo que cresce sozinha e a do grão de mostarda. A primeira parábola põe em evidência o dinamismo da semente que, uma vez lançada à terra, germina e cresce, de noite e de dia, quer o camponês durma, quer esteja acordado. O agricultor lança a semente confiando na força da semente e na bondade do terreno. Esta parábola evidencia, portanto, a obra divina da criação e da redenção, que se realiza mediante um dinamismo profundo, maravilhoso e misterioso. Chamados nós também pela Virgem Maria a colaborar na obra de salvação, devemos oferecer o nosso serviço com humildade, generosidade e entusiasmo, sabendo que o resultado final não depende de nós, mas da força de salvação que flui, irrefreável e incessante, do mistério da cruz e ressurreição de Jesus. É Deus que salva, porém, pede a nossa colaboração que é constituída por tudo o que podemos fazer de bem e de bom: orações, sacrifícios, penitências, serviços, doações, testemunhos, iniciativas corajosas e criativas, obras de misericórdia corporal e espiritual.

Embora os frutos não apareçam como, quando e quanto esperávamos, temos de confiar em Deus, convencidos de que a nossa colaboração não foi inútil. O importante é poder reconhecer honestamente, frente a nós mesmos e frente a Deus, ter feito verdadeiramente tudo o que podíamos e devíamos. O problema é que dificilmente podemos dizer isto; de facto o amor verdadeiro chama-nos a dar sempre mais, a fazer sempre mais e melhor. O Senhor chama-nos a uma colaboração que é objetivamente secundária, porque Ele é o Autor principal; porém, ao mesmo tempo, a nossa colaboração deveria alcançar os máximos níveis de perfeição, exigidos por um coração cheio de amor. Viver e promover a devoção ao Coração Imaculado de Maria significa, portanto, deixar que o fogo do amor que enche o seu coração possa expandir-se também no nosso coração, a fim de também nós podermos difundir este incêndio de amor.

A segunda parábola utiliza também a imagem de uma semente: um grão de mostarda. Embora seja “a menor de todas as sementes”, dela nasce um rebento que cresce até se tornar a “maior de todas as plantas da horta”. O elemento que carateriza esta parábola é a desproporção entre a pequenhez da semente e a grandeza final da planta. É a desproporção entre a pequenhez inicial e a grandeza final, expressa muito bem nas palavras de Maria no Magnificat: O Senhor “pôs os olhos na humildade da sua serva” e depois “o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas”. É o modo de atuar de Deus que exalta os humildes (Lc 1,52); pelo qual os últimos serão os primeiros (Mt 20,16); que escondeu as grandes verdades aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos (cfr. Mt 11,25). Desta maneira ninguém pode vangloriar-se. Quem sou eu para me vangloriar, se tudo é recebido de Deus? É significativo o facto de a Virgem Maria querer aparecer a três crianças – com a maior de apenas dez anos – , felizes de pastorear as ovelhas, crianças que não sabiam ler. Podemos dizer que os três pastorinhos são como o grão de mostarda que – a pesar da sua fragilidade e pequenhez, não obstante tantas ameaças, incompreensões, dificuldades e obstáculos, graças à obra do Espírito e à ajuda maternal da Virgem Maria – estiveram na origem da realidade deste Santuário de Fátima onde tanta gente, como neste momento, vem abrigar-se à sua sombra, buscando consolação, força, graças para si e para os seus entes queridos. Tanta gente vem a este lugar para perceber no seu coração as mesmas palavras que Nossa Senhora disse a Lúcia neste mesmo lugar, em 13 de junho de 1917: “Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O Meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá a Deus”.

Trata-se de palavras que despertam e reavivam a esperança cristã e nos recordam como esta nossa vida é uma peregrinação para a casa do Pai, na qual esperamos poder entrar se formos considerados dignos. É uma grande verdade que também o Apóstolo Paulo nos recordou hoje na sua Segunda Carta aos Coríntios: “Todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que receba cada qual o que tiver merecido” (2 Cor 5, 10). “Por isso – como afirma São Paulo – nos empenhamos em ser-lhe agradáveis, quer continuemos a habitar no corpo, quer tenhamos de sair dele” (2 Cor 5,9). A este respeito o Papa Francisco comentou da seguinte maneira: “A vida de um servidor do Evangelho desenrola-se animada pelo desejo de agradar ao Senhor em tudo” (fim de citação) (Homilia do 5 de novembro de 2020). O desejo de agradar ao Senhor não deve nascer do medo, mas do amor. Aquele que ama verdadeiramente, preocupa-se por agradar de muitas maneiras à pessoa amada. Foi o que fez, de maneira perfeita, a Virgem Maria com Deus. É o que também nós podemos e devemos fazer, se o nosso coração entrar em sintonia cada vez mais intensa com o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

Ao finalizar esta reflexão, não posso deixar de mencionar o facto de hoje a Igreja celebrar a memória de Santo António de Lisboa ao qual eu também estou particularmente afeiçoado, uma vez que concluiu a sua peregrinação terrena na minha cidade de Pádua, onde é muito amado e venerado. Ele, que dedicou à Virgem vários sermões, dirigiu-lhe esta breve e linda oração que cada um é convidado a fazer própria:

“Senhora nossa, única esperança nossa, suplicamos-te que ilumines as nossas mentes com o esplendor da tua graça, que nos aqueças com o calor da tua visita e que nos reconcilies com o teu Filho, para que possamos merecer chegar ao esplendor da sua glória. (…) A Ele a honra e a glória pelos séculos eternos. Ámen.”

 

D.Ivo Scapolo, Núncio Apostólico

12  e 13 de junho de 2021, Santuário de Fátima

 

 

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