Clericalismo. Um problema real

Clericalismo, abusos e seminários parecem conjugar-se com frequência em diversos artigos e estudos nos últimos anos. Ainda no passado mês, a Comissão de Protecção de Menores da Austrália concluiu, no seu relatório final, que o clericalismo contribuiu significativamente para os abusos nas instituições religiosas da Austrália. Tornou-se evidente que seria necessária uma reforma cultural e estrutural dos seminários, tendo em vista o combate ao ambiente clericalista no qual são formados os seus seminaristas. Maiores informações sobre este relatório poderão ser lidas no artigo “Será tempo de repensar os seminários?”, disponível no site da Revista de Imprensa Internacional da Arquidiocese de Braga.

 

O tema e a associação não são novos. O clericalismo foi identificado pelo Papa Francisco como sendo um dos sintomas mais nefastos e tóxicos da Igreja contemporânea. O impacto na pastoral, na relação com o laicado, nas dinâmicas de reforma e na percepção pública são reais. Diz Francisco que “quando encontra um seminário ou padre novo rígido, pensa «algo de mau está a acontecer a esta pessoa no seu interior». Por detrás de toda a rigidez existe um problema sério, porque à rigidez falta a humanidade”. A reforma dos seminários é uma prioridade. Este é o tempo e lugar onde os jovens discernem a sua vocação, mas também o lugar cujo ambiente condiciona – positiva ou negativamente – a sua forma mentis.

 

Há, por isso, uma dimensão mais profunda no clericalismo e que tende a ser desvalorizada. Ele assenta em três pressupostos inconscientes.

 

O primeiro é a percepção que os sacerdotes têm da sua identidade. Acreditam que, pela ordenação, se opera uma mudança ontológica que os torna distintos dos demais cristãos. Normalmente, tal percepção é acompanhada por um sentimento de superioridade espiritual e moral. Contudo, tal mudança ontológica não é do espectro da distinção, mas da aproximação a Cristo. Configuram-se a Cristo para serem garante da unidade e da fraternidade: “já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos” (Jo 15,15).

 

O segundo decorre da pobre recepção da teologia conciliar da Lumen gentium, sobrepondo a estrutura hierárquica da Igreja à natureza eclesial de Povo de Deus. Não é arbitrária a estrutura desta constituição dogmática. Primeiro o capítulo sobre o Povo de Deus e só depois outros sobre a hierarquia e o laicado. A natureza precede a forma ou estrutura da Igreja, e não o seu contrário. Assim, clero, leigos e religiosos – convocados ao discipulado de Cristo – participam, a seu modo, no “único sacerdócio de Cristo” (LG 10).

 

Por fim, existe o pressuposto de que a sua missão primeira, dado que a maior parte é enviada para as paróquias, é a de ensinar e orientar o laicado, criando-se assim uma relação de tipo paternalista. Na realidade, os sacerdotes são ordenados, antes de mais, para cooperarem com os bispos. Destes dependem para exercer qualquer tipo de poder e a eles se unem para “pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino” (LG 28). Seria já um passo significativo para o fim do clericalismo a substituição do imaginário de governo pelo valor da cooperação.

 

Creio que esta reflexão é particularmente relevante a poucas semanas da abertura do sínodo sobre a sinodalidade. O Papa Francisco deixou claro que este sínodo não é apenas um evento, mas deve transformar-se num estilo onde cada “baptizado se sinta envolvido na transformação eclesial e social de que tanto necessitamos”. E para tal indicou três dimensões: comunhão, participação, missão.

 

Ora, a existência de um modelo de Igreja de tipo clericalista choca frontalmente com este novo tempo – de estilo, processos e estruturas – que se pretende inaugurar. Não só choca como, com realismo, pode ser um factor bloqueador à participação universal no processo de transformação. É por isso importante, entre outras coisas, que os secretariados para a fase diocesana do sínodo espelhem a totalidade do Povo de Deus, que os resultados da consulta diocesana sejam passados sem filtros para a fase consecutiva e, mais importante, que este seja o início de um novo modo de estar em Igreja. Para o bem de todos.

P. Tiago Freitas * Arquidiocese de Braga

Artigo publicado no DM, na edição de 04.10.2021

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