Máscaras, sempre as tereis

É oficial… As máscaras vieram para ficar. Já não tanto para proteger de algum coronavírus, sobretudo para facilitar, legitimar e entronizar a hipocrisia (falsidade, cinismo, oportunismo, perfídia) que grassa na maioria das relações e aproveitar o momento/oportunidade de chular ou xingar os outros. Tudo acontece numa passerelle desenhada ao pormenor, onde cada ator desfila com a máscara mais apropriada ao lugar, aos presentes e às conveniências.

Transparência? Há-a aos rodos a envolver e revelar corpos (pre)formados ou (de)formados em solários e salões de beleza ou em ginásios e clínicas. O que realmente importa é cuidar da montra, pavonear bugigangas e títulos, e anunciar aos quatro ventos: “Estás linda! A idade não passa por ti! Que brasa! Um corpo de comer e chorar por mais! Que pão! Adoro o teu vestido! Tem tudo no sítio! Não se vê nenhuma ruga! Que músculos e abdominais!” And so on…

Verdade? Coerência? Depende sempre das pessoas e circunstâncias. Uns dias convém dizer bem, noutros nem tanto; uns dias somos amigos de peito, noutros vendem-nos nas praças e fóruns trauliteiros; uns dias juram a pés juntos, noutros juram que não juraram; uns dias espargem simpatia e cortesia, noutros empestam o ambiente de tramoias, mentiras e chungarias.

Altruísmo e solidariedade? Sempre, desde que partilhado nas redes sociais ou reconhecido e divulgado por quem de direito. A preocupação com o bem alheio veste contornos de autêntica heroicidade: tudo são causas e há causas para tudo, até em favor dos ditos humanos. Do incómodo de suas poltronas ou da rudeza das banheiras de massagens ressoam vozes de desagrado pela fome, injustiça, pobreza, exploração, falta de recursos e medicamentos e tanta miséria pelo mundo fora. Fica tão bem sentir à distância a dor dos outros e mandar terceiros cheirar as próprias fraldas ou as de outrem. Querer o bem dos outros é bem diferente de fazer bem aos outros, mesmo que alertados pela sabedoria popular: “Algumas pessoas querem ver-te bem, mas nunca melhor do que elas.”

Divirto-me à brava a juntar as cenas deste pungente e pujante teatro de máscaras. É incrível a ginástica na encenação de papéis, sentimentos, amizades, afinidades, concordâncias, modéstias ou compaixões. É horrível darmo-nos conta da facilidade e astúcia com que muitos fazem e desfazem amizades, usam sentimentos e momentos, dizem e se desdizem, procuram se precisam e descartam se servidos, anunciam-se teus melhores amigos e lambuzam-se à mesa dos teus piores inimigos. E então? São máscaras, senhores!

P. António Magalhães Sousa  *  Braga

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