Existo, porque estou na(s) rede(s)

Detive-me a olhar a Palavra de Deus do próximo domingo: «Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a aos cetros e aos tronos e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada. Não a equiparei à pedra mais preciosa, pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo. Amei-a mais do que a saúde e a beleza e decidi tê-la como luz, porque o seu brilho jamais se extingue. Com ela me vieram todos os bens e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis.» (Sab 7, 7-11)

Sabedoria! E tanta falta faz! Também rezar e pedi-la. Porque multiplicam-se sinais e sintomas de insensatez, insolência, vaidade, sobranceria, mundanismo, vacuidade. Também entre aqueles que andam pela igreja e empertigam o umbigo à volta dos serviços prestados ao sagrado ou em nome do sagrado. E sim, a falsa humildade, pelos seus modos e meios, serve de sobremaneira aos hipócritas, dissimulados, mercenários ou ególatras.

«Quando rezardes, não sejais como os hipócritas: gostam de rezar de pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos pelos homens. Amen vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto e, fechando a tua porta, reza ao teu Pai, que está no segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará» (Mt 6, 5-6). Ditou Jesus.

Então, qual a necessidade de escarrapachar nas redes sociais – em fotos e/ou vídeos – o que se passa dentro das igrejas nas celebrações, momentos de oração e adoração ou mesmo divulgar arranjos florais e outras ações e iniciativas? Porquê postar nas redes eventos, sentimentos ou momentos pessoais e/ou comunitários? Não mingará a fé e sobrará vaidade? Será mesmo verdade que a carroça quanto mais vazia for mais barulho faz? A procura de elogios fáceis e sonoros, de likes e aprovações públicas não poderá sugerir desequilíbrios internos e/ou dúbias intenções?

Talvez tivesse razão Zygmunt Bauman ao falar de alguns sinais de uma sociedade líquida: «Os adolescentes equipados com confessionários eletrónicos portáteis são apenas aprendizes treinando e treinados na arte de viver numa sociedade confessional – uma sociedade notória por eliminar a fronteira que antes separava o privado e o público, por transformar o ato de expor publicamente o privado numa virtude e num dever público». O mais grave é haver muitos “adultos” dependentes destes comportamentos, convencidos de que estão a fazer bem e a ser catapultados para patamares superiores de poder, glória e estatuto perante os demais.

 

P. António Magalhães Sousa  *  Braga

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