A Ideologia de Género e o Evangelho

E se eu disser que a ideologia de género visa destruir a integridade do Evangelho?

Sim, a inserção/imposição da ideologia de género na base curricular nacional e a promoção da cultura LGBTQIA+ na sociedade visa: destruir o cristianismo e a família natural, retirar aos pais o direito a educar os seus filhos de acordo com a sua fé, valores e princípios, confundir as crianças quanto à sua identidade sexual e levá-las a relativizar o valor da vida – da concepção á morte natural –  apresentando-lhes o aborto e a eutanásia como “direitos humanos”, e assim, claro, ferir de morte a autoridade das Escrituras Sagradas.

O primeiro alvo a abater, por parte do lobby LGBTQIA+, é a autoridade suprema e final das Escrituras Sagradas, resumida no mote protestante Sola Scriptura. Nós, protestantes, herdeiros da Reforma, somos o povo Sola Scriptura, pois vemos nas Escrituras Sagradas a nossa autoridade final de fé e prática.

Para nós, a Sola Scriptura não se rende à sola cultura. É a Palavra de Deus que julga toda cultura e não o contrário. As culturas até podem passar, mas a Palavra de Deus permanece para sempre.

A Palavra de Deus só reconhece a união monogâmica heterossexual como projecto divino para a família. Esse foi o padrão estabelecido por Deus no Jardim do Éden (Gn 1.26-28; 2.23-25), registado e defendido por Moisés (Ex 20.14), autenticado pelo Senhor Jesus Cristo (Mt 19.4-6) e citado pelo apóstolo Paulo como sendo um fiel retrato da aliança entre Cristo e a Igreja (Ef 5.22-33). As Escrituras só reconhecem o sexo entre um homem e uma mulher, no casamento, como o padrão aceitável e normativo para todos os homens e mulheres, em todos os lugares e em todos os tempos.

Ao refletir sobre a união matrimonial entre marido e esposa, o apóstolo Paulo vê um retrato público e visível da união entre Cristo e a Igreja (Ef 5.23-25). A aplicação que o apóstolo faz desse princípio é a natureza insubstituível do papel de um homem e uma mulher no casamento. Ou seja: assim como Cristo não faz o papel da Igreja nem a igreja faz o papel de Cristo, o marido não pode fazer o papel da esposa e vice-versa. Da mesma forma que Cristo é o “cabeça” da Igreja, o marido é o “cabeça” (autoridade) da mulher. E, não, isso não implica que o marido exerça qualquer espécie de tirania sobre a sua esposa. Pelo contrário, ele deve representar a autoridade espiritual, sacrificial e amorosa de Cristo, amando a sua esposa como a si mesmo.

Então, da mesma forma que os papeis do homem e da mulher, no casamento, não são intercambiáveis, eles só podem ser cumpridos por um homem e uma mulher. Não por um homem e outro homem, nem uma mulher e outra mulher (ou qualquer outra variação ideológica desta época). Mexer no princípio bíblico é adulterar o retrato público, visível e terreno mais próximo da aliança entre Cristo e a Igreja, sacramentada no Evangelho.

Mas, questionarão alguns, o Evangelho não é a declaração do amor de Deus por pecadores? Deus não é amor?

Sim. O evangelho é a declaração do maravilhoso amor de Deus por pecadores. Sim. Deus é amor. Mas o “amor” – como definido pela cultura ocidental desde a década de 1960, “livre”, ou seja, sem qualquer restrição ou submissão a uma autoridade alheia ou externa – não é Deus nem é amor. Deus é amor e o seu amor é santo, sacrificial, distinto e único. Essa distinção foi selada no sacrifício do seu Filho Unigénito, Jesus Cristo, na Cruz do Calvário, por pecadores indignos desse amor como eu e você. E, em parte, de acordo com o apóstolo Paulo, essa distinção do amor de Deus é revelada neste mundo pelo amor sacrificial conjugal entre seres humanos de sexos distintos: um homem e uma mulher.

Destruir a instituição divina do casamento entre um homem e uma mulher – para toda a vida, até que a morte os separe – e promover qualquer outro arranjo que defenda o amor por alguém do mesmo sexo é transformar o amor num ídolo, um deus “à nossa imagem e semelhança”, um amor que não nos confronte e desafie a amar aquele que, sendo da mesma espécie, é totalmente diferente de nós.

O Evangelho é a proclamação pública do amor gracioso, santo e imerecido de Deus por criaturas radicalmente diferentes d’Ele. O Evangelho chama-nos a amar o Deus Todo-poderoso, santíssimo e radicalmente diferente de nós, e a amarmos outras criaturas humanas totalmente diferentes de nós, até mesmo os nossos inimigos (Mt 5:38-47) – em casa, na igreja, no trabalho, na escola, e na sociedade como um todo. Mas, no casamento, o seu Autor, o Deus santo e amoroso, ordena que só um homem e uma mulher se unam pelos laços do matrimónio, como testemunho do amor de Cristo pela Igreja, conforme revelado no Evangelho.

Qualquer arranjo diferente daquele que Deus instituiu no jardim do Éden – ao unir o homem e a mulher – não é bíblico e, muito menos, evangélico.

 

Maria Helena Costa

Escritora, Cristã Evangélica

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