A chaga do clericalismo tem resistido à mudança pastoral e nota-se uma certa moda retro, de sabor revivalista

Receção do Concílio Vaticano II em Portugal (II)

Três notas negativas, como estímulo à conversão pessoal e pastoral

E agora sou desafiado a tocar três notas de distanciamento em relação ao Concílio. Faço-o como estímulo à conversão pessoal e pastoral.

1. Em primeiro lugar, e parafraseando o Papa Francisco, diz-se que é hora dos leigos, mas parece que o relógio parou. A chaga do clericalismo tem resistido à mudança pastoral e nota-se uma certa moda retro, de sabor revivalista, com saudades dos tempos e modos anteriores ao Concílio, por parte de cristãos que nem sequer viveram esse tempo.

É um clericalismo, enroupado de falsas seguranças, que menoriza e despreza os leigos, – a maioria do Povo de Deus – esse gigante adormecido, atribuindo-lhes algumas tarefas e reduzindo-os a lugares de delegação, que se concede por condescendência e necessidade e não pela convicção de que tal campo de ação lhes pertença, em razão da sua condição batismal.

Nota-se uma certa fadiga democrática e um certo recuo eclesial quando se trata de ativar os órgãos de corresponsabilidade pastoral.

Como compreender que, tantos anos volvidos, não funcione, em tantas paróquias ou unidades pastorais, um Conselho Paroquial (ou interparoquial) de Pastoral?

Acreditamos mesmo que o Espírito atua e fala pela boca de todos os fiéis e até mesmo pelos pagãos?

(Às vezes) Parece que não.

2. Uma segunda nota de distância em relação ao Concílio é o desenvolvimento dos ministérios laicais, dos ministérios instituídos publicamente pela Igreja.

Só no passado dia 10 de janeiro é que o Papa Francisco, com o seu Motu Proprio Spiritus Domini, ao permitir o acesso das mulheres aos ministérios laicais (de leitor e acólito), ligou tais ministérios aos sacramentos da iniciação e do matrimónio e não ao Sacramento da Ordem, como se estes fossem ministérios preparatórios ou de suplência do ministério ordenado.

Não se desenvolveram ministérios laicais.

Em algumas dioceses, avançou-se para o diaconado permanente sem ativar o leitorado, o acolitado e até o ministério do catequista [recentemente instituído pelo Papa Franscico].

E os que há, de forma não instituída, mas reconhecida, estão mais centrados para a vida interna da Igreja (ministérios litúrgicos e proféticos) do que para o serviço da Caridade. Não por acaso florescem movimentos de “espiritualidade” e se definham os movimentos de ação apostólica no mundo.

Neste capítulo de adormecimento laical, podia acrescentar-se a dificuldade e a resistência em reconhecer o génio feminino e o contributo específico da Mulher na vida da Igreja, não apenas em serviços e ministérios, mas também nos seus órgãos de corresponsabilidade, de discernimento e de decisão.

Aqui estamos (mas também boa parte da sociedade|) quase a anos-luz do que devíamos ser.

3. Uma terceira nota de distanciamento em relação ao Concílio é a de uma mundanização ou mundanismo, que ainda nos invade até ao caroço da azeitona, como se vivêssemos em regime de cristandade e fôssemos mais uma estrutura de influência nos corredores, dominados por lógicas de poder, em vez de sermos sacramento sinal e instrumento do Reino de Deus neste mundo.

O compromisso de transformação do mundo, a fermentação evangélica das realidades terrenas, o diálogo entre a fé e a cultura, exige da Igreja um despojamento de poder, uma humildade de escuta, uma diaconia de proximidade, de que estamos ainda muito longe.

O sonho de Francisco, de Assis ou de Roma, de uma Igreja pobre e para os pobres tem de deixar de ser uma miragem poética para se tornar uma realidade profética.

Precisamos de uma Igreja mais humilde, sem pose nem posse, sem titularidades mundanas, sem pompa e circunstância, uma Igreja que é Povo de Deus, peregrino, atraído e comprometido, não pelas honrarias deste tempo, mas pela beleza da santidade e pelo esplendor da eternidade. Julgo que ainda não descobrimos bem a nossa vocação de sermos no mundo o que alma é no corpo, para que efetivamente as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, sejam também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo (cf. GS 1).

Este é o princípio de um belo documento do Concílio.

E é por aí que temos de começar todos os dias, movidos pelo sopro do Espírito que nos move a partir e a sair, da Igreja para a humanidade inteira, para fazer de Cristo o coração do mundo.

P. Amaro Gonçalo

Pároco da Senhora da Hora, Diocese do Porto

Texto publicado no jornal “A Igreja em Barroso”, 1.06.2021, p.6, gentilmente cedido ao Religiolook

Diariamente lemos o mundo na procura de sentido para encontrarmos a mensagem religiosa necessária para si. Fazemo-lo num tempo confuso que pretende calar o que temos para dizer. Sem apoios da nomenclatura publicitária, vimos dizer-lhe que precisamos de si porque o nosso trabalho não tendo preço necessita do seu apoio para continuarmos a apostar neste projecto jornalístico.

Deixe uma resposta

*