Olhares: O universo como comunhão de sujeitos

Uma Pastoral da Ecologia Integral não vive somente da Laudato Si’, mas também do modo como alguns pensadores cristãos desenvolveram uma visão da natureza e do nosso relacionamento com essa. Porém, apesar de haver sempre alguns pensadores que viveram em épocas anteriores à nossa, talvez fosse conveniente voltar o nosso olhar para os mais actuais. Nesses pensadores, a sensibilidade às alterações climáticas é maior, sendo a sua visão humus que pode inspirar novas linhas de formação para uma Ecologia Integral. Estou a pensar em Thomas Berry.

Thomas Berry era um sacerdote americano Passionista que se tornou um dos maiores eco-teólogos do nosso tempo. Desde 1988 com o seu livro ”The Dream of the Earth” (O Sonho da Terra) que Berry procura uma narrativa cósmica que expresse um relacionamento diferente entre nós e o planeta onde surgiu a espécie humana. Uma das suas ideias fundamentais ao reescrever essa narrativa é a de que — «o universo é uma comunhão de sujeitos, não uma colecção de objectos.» A chave de leitura da comunhão é essencial no pensamento de Thomas Berry e possui o propósito de nos ajudar a superar a dilaceração interior causada por duas histórias que fazem parte da bagagem cultural da nossa geração: o relato da criação e a descrição científica da evolução.

É muito difícil para qualquer pessoa conseguir contemplar e relacionar-se com a natureza sentindo-se parte da mesma família da criação. Isto é, por tudo aquilo que se tem dito na última década, todos estamos mais sensíveis ao que os nossos comportamentos podem fazer no meio ambiente que nos circunda, mas daí a ver o mundo natural como um ”outro” que sou chamado a amar parece ser um salto gigante. Essa distância entre nós e a natureza resulta da alienação causada pela dicotomia das tais duas histórias, que diminuiu, gradualmente, em nós, a capacidade de ver a Terra como uma comunidade sagrada. Daí que os escritos de Berry procurem uma nova história que integre as dimensões material e espiritual da evolução.

A escritora Edith Wharton associava a longevidade e criatividade a quatro características que permeiam a pessoa de Berry: i) não ter medo de mudar; ii) ter uma insaciável curiosidade intelectual; iii) estar interessado em coisas grandes; iv) e ser feliz nas coisas pequenas. Características que podem inspirar o nosso desenvolvimento pessoal ao conhecer melhor o pensamento de Thomas Berry.
Para além da comunhão, uma outra expressão chave do pensamento de Berry é ”The Great Work” (A Grande Obra) por ele contextualizada dizendo que — «existe um quantum de energia, disponível no momento presente, para o movimento criativo entre o Cenozóico que termina e o Ecozóico que emerge. Contudo, esta energia estará disponível apenas por um breve período. Tais momentos transformativos surgem em tempos de crise que precisam de resolução imediata. O tempo para a acção está a passar. A devastação aumenta. O tempo é limitado. A Grande Obra está ainda por fazer.» Que Grande Obra é essa? Viver a fraternidade universal com o mundo natural. Porém, as palavras de Berry não podiam ser mais actuais depois de mais um COP falhado e sem compromissos.
Como o tempo das nações é demasiado hesitante a passar das palavras à acção, penso ter chegado o tempo da fé. E, com esse, o momento de começar a pensar naqueles que poderão ajudar-nos a aprofundar o nosso modo de pensar nos tempos em que vivemos. Pois, quando nos damos conta de que pensar é um acto de amor que transforma os nossos comportamentos, começa a ser importante aprender a pensar bem com a ajudar de pessoas inspiradas como Thomas Berry.

Bibliografia Principal de Thomas Berry:

  • The Dream of the Earth (1988)
  • The Universe Story (1992, com Brian Swimme)
  • The Great Work (1999)
  • Evening Thoughts (2006)
Miguel Oliveira Panão * Professor universitário * Autor

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