Olhares: Evitar a cacofonia sinodal

Uma das expressões mais relacionadas com o percurso a fazer de uma “Igreja Sinodal” é caminharmos juntos. Nesse caminhar é relevante dar voz a todos e não somente aos que estão habituados a falar. Caminhar juntos através da escuta de todos leva, também, a pensar que todo o cristão tem alguma coisa a dizer. O problema é se muitos dizeres misturados se tornam numa cacofonia sinodal.

 

Todos somos Igreja, mas num dicionário encontramos a palavra sínodo referindo-se mais a uma assembleia eclesiástica, pelo que a junção de ambas palavras como “Igreja Sinodal” pode suscitar algumas dúvidas na mente dos crentes. A este propósito, a Comissão Teológica Internacional (CTI) publicou um documento intitulado “A sinodalidade na vida e na missão da Igreja” que ajuda a esclarecer o que o dicionário não consegue fazer.

 

Diz o documento no n. 3 que

«“Sínodo” é palavra antiga e veneranda na Tradição da Igreja, cujo significado recorda os conteúdos mais profundos da Revelação. Composta pela preposição σύν, “com”, e pelo substantivo ὁδός, “via”, indica o caminho feito conjuntamente pelo povo de Deus. Remete, portanto, ao Senhor Jesus, que se apresenta a Si mesmo como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), e ao facto de que os cristãos, consequentemente, são originariamente chamados “os discípulos do caminho” (At 9,2; 19,9.23; 22,4; 24,14.22).» Portanto, na raiz da palavra “sínodo” está o reconhecimento do quanto somos discípulos do caminho que é o próprio Jesus. A leitura que faço é a de que um sínodo corresponde a um percurso que fazemos juntos em Jesus. Porém, “sinodalidade” ou “sinodal” são palavras novas.

 

No n. 5, diz a CTI que

«Na literatura teológica, canónica e pastoral das últimas décadas surgiu o uso de um substantivo criado recentemente, “sinodalidade”, correlato do adjectivo “sinodal”, ambos derivados da palavra “sínodo”. Fala-se, assim, da sinodalidade como “dimensão constitutiva da Igreja e tout court de “Igreja sinodal”. Esta novidade de linguagem, que pede uma atenta e precisa definição teológica, atesta uma aquisição que vem amadurecendo na consciência eclesial a partir do Magistério do Vaticano II e da experiência vivida nas Igrejas locais e na Igreja universal desde o último Concílio até hoje.» E mais tarde no n. 6, finalmente, esclarece que — «a sinodalidade (…) indica o específico modus vivendi et operandi da Igreja povo de Deus que manifesta e realiza concretamente o ser comunhão no caminhar juntos, no reunir-se em assembleia e no participar activamente de todos os seus membros na sua missão evangelizadora.»

 

A leitura mais comum é a de que todos tem uma palavra a dizer, mas como nem todos sabem bem o que dizem, ou deram tempo suficiente para pensar no que dizer, corremos o risco de falarmos uns por cima dos outros, tornando o diálogo estridente e daí a expressão cacofonia sinodal. Talvez seja este o receio de algumas pessoas em relação a este processo, mas é tudo uma questão de predisposição interior.

 

Se antes de pensarmos que temos algo a dizer pensarmos que temos algo a aprender, a escuta precederá a palavra. E a palavra que se seguirá à escuta não é dita pela autoridade que se tem, mas como resposta de amor à palavra do outro. Temos muito a aprender uns com os outros para deixarmos que seja Ele presente entre nós a inspirar-nos. E maior será a experiência da Sua presença, quanto mais nos amarmos. Pois, só o amor que aguarda o silêncio do outro para se pronunciar pode transformar a cacofonia em melodia.

 

Miguel Oliveira Panão * Professor Universitário e Autor

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