Quem dá também recebe

1.A vida é uma grande escola onde podemos aprender muito se prestarmos atenção à realidade feita de acontecimentos e de pessoas concretas. Jesus recorre frequentemente à escola da vida para ajudar os discípulos e as multidões a discernir, a interpretar os gestos e posições tomadas pelas pessoas, e, assim, escolher criteriosamente o caminho da bondade e da retidão. Nos exemplos concretos, Jesus procura levar a descobrir, para além das aparências, as intenções do coração, as motivações ocultas. Desta forma, o nosso Mestre e Senhor ensina-nos a definir os valores evangélicos que embelezam a vida, a encontrar referências dignas e a seguir um comportamento evangélico. É a mensagem do evangelho de São Marcos (Mc 12, 38-44) neste 32º domingo. Neste trecho do evangelho, Jesus aponta, primeiramente, um exemplo a evitar: o comportamento hipócrita de alguns chefes religiosos (escribas ou mestres da lei) que se autoproclamavam como perfeitos e exemplares, mas, no coração e nas atitudes, eram orgulhosos, vaidosos, exploradores dos pobres e indefesos. Depois chama a atenção para a oferta de uma viúva pobre como atitude exemplar para imitarmos.
2. Procuremos rever os nossos sentimentos interiores e as nossas atitudes à luz destes dois exemplos. Em ambos Jesus recomenda para não nos deixarmos enganar pelas aparências. Ainda hoje podemos cair na mesma tentação de cuidar demasiado da imagem exterior e esquecer o enriquecimento interior na humildade, simplicidade e bondade. Muitas pessoas aparentam grandeza e importância que não corresponde ao que são na realidade. Vestem-se com luxo, adquirem artigos caros, procuram lugares de relevo, mas não abrem as mãos para dar, são escassos na partilha e na ajuda aos necessitados. Adotemos o exemplo de generosidade da viúva anónima que deita na caixa das ofertas do Templo um donativo insignificante-apenas duas moedas de escasso valor. Que aproveitaria às atividades do Templo? Mas Jesus ensina-nos que a riqueza está na generosidade do coração, pois a viúva pobre dá tudo o que tem. Na mesma linha, a primeira leitura, do livro dos Reis, apresenta um exemplo semelhante de uma outra viúva pobre, do tempo de Elias, que ofereceu a este profeta todo o alimento que possuía, confiando que, depois, nada lhe faltaria e assim aconteceu.
3. Nestes exemplos das viúvas pobres mas generosas aprendemos a dar e a receber. Recebemos gratuitamente muitos dons: a própria vida, a cultura, os bens da civilização, as conquistas da técnica, da medicina, as pessoas dedicadas aos vários serviços, os dons da fé, o amor da família, dos amigos. Que temos nós que não tenhamos recebido? Vivemos do dom, da partilha, do afeto e não só de direitos e deveres. A autossuficiência e a autorreferencialidade são um engano e sinal de pobreza humana e espiritual. Acreditar é confiar em Deus que nos enriquece com os seus dons e nos dedica um amor gratuito. Como maior dom enviou-nos o Seu próprio Filho, Jesus Cristo, que se fez pobre para nos enriquecer a todos. Confiemos, portanto, e partilhemos gratuitamente não só os nossos bens, mas a nossa própria vida, o nosso afeto, o nosso tempo, a nossa dedicação gratuita. Acreditemos no que promete o evangelho “ Dai e dar-se-vos-á”.
D. Manuel Pelino * Bispo emérito de Santarém

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