A vida transformar-se-á

1. Celebramos o 33º domingo que antecede o domingo de Cristo Rei, coroa a concluir o ano litúrgico. As leituras convidam-nos a refletir sobre o final do mundo e o fim da nossa vida. Falam de angústia, medo, sofrimento e trevas, mas asseguram que, depois, se seguirá a vitória da luz que Jesus nos alcançou pela Sua ressurreição. É para esta vitória que se orienta a peregrinação da nossa vida como rezamos no salmo 15/16 deste domingo: “dar-me -eis a conhecer os caminhos da vida, alegria plena na vossa presença”. O mundo e a vida conhecerão um fim. Se, porém, seguirmos e difundirmos o caminho do bem, teremos o nosso nome inscrito no “Livro de Deus”, ou seja, temos lugar marcado na morada do Pai.
O evangelho (Mc 13, 24-32) anuncia a vinda gloriosa de Jesus, vencedor das forças das trevas e do mal (“O Filho do homem virá sobre as nuvens com grande poder e glória”), para nos tornar participantes da sua vitória e nos integrar na comunhão dos santos, na grande família de Deus (“reunirá os eleitos dos quatro pontos cardeais”). Trava-se, realmente, uma luta entre as trevas e a luz, entre as forças do mal e o poder da graça de Jesus. Estamos envolvidos neste confronto que se desenrola na história dos homens e no coração de cada um. Mas Deus não nos falta com a ajuda adequada (o arcanjo São Miguel protege os filhos de Deus, revela a primeira leitura). Se seguirmos o evangelho e resistirmos às tentações das trevas, a luz resplandecerá em nós e irradiará à nossa volta.
2. O problema do final dos tempos, sobretudo do fim da nossa vida pessoal, mexe connosco. Frequentemente ouvimos declarar: “eu não queria morrer; eu não quero pensar nem ouvir falar na morte”. Realmente fomos criados para vida e o nosso anseio mais profundo é viver com qualidade. A vida é o maior presente que nos foi dado e, mesmo quando dói, ansiamos por vivê-la. Por isso, associamos a ideia do fim às trevas e ao medo. A mensagem de Deus nestas leituras convida-nos, porém, a enfrentar e a viver a nossa condição efémera, mortal, com coragem e com esperança, pois o final tenebroso da vida terrena é também o início luminoso da vida eterna na paz e na alegria do Senhor. Como rezamos no prefácio dos defuntos: “a vida não acaba apenas se transforma”. Deste modo, é salutar lembrar o fim para nos avivar o sentido e a responsabilidade da vida e nos incentivar a aproveitar o tempo presente para semearmos a eternidade. As tribulações e os sofrimentos são passageiros. Definitiva será a luz: (“os justos brilharão como estrelas pela eternidade” diz a primeira leitura).
3. Em contraste com a linguagem dramática das leituras do profeta Daniel e do evangelho, o salmo15/ 16, que rezamos este domingo, convida-nos à serenidade e à alegria. Garante-nos que “Deus não abandonará a nossa alma na mansão dos mortos” (v/10). N’Ele podemos confiar com segurança, pois “o Senhor está sempre a nosso lado e não nos deixa vacilar” (v/7-8). Torna-se muito oportuno e enriquecedor meditar esta bela oração, sobretudo nos momentos de trevas e medo. Um padre amigo, ao começar a perder a memória, pediu que lhe escrevessem este salmo para poder, assim, recitá-lo continuamente, mesmo após a diminuição das faculdades. Experimentemos também rezá-lo com frequência.
D. Manuel Pelino * Bispo emérito de Santarém

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