A esperança que não engana

 

  1. A vida cristã decorre sob o teto das promessas de Deus. Notamos esta condição de modo particular no tempo litúrgico do advento que iniciamos neste domingo 28 de Novembro. Serão quatro domingos de preparação para o mistério da Encarnação de Deus na história humana que celebramos no Natal. Ao longo desta quadra, a liturgia refere várias vezes as promessas de Deus de que o acontecimento natalício é cumprimento. Ora as promessas dão origem à esperança, pois se Deus promete não deixará de cumprir. Deste modo, advento e natal são tempos oportunos para cultivar a esperança, uma virtude que, juntamente com a fé e a caridade, identifica os cristãos e se torna tão necessária em alturas de desânimo. Na verdade a Bíblia, fonte da nossa fé, apresenta-se, marcadamente, como o livro das promessas de Deus. Assim reconhece Maria de Nazaré no hino “Magnificat” que proclamou perante sua prima Isabel ao referir-se às maravilhas que Deus estava a operar através da sua humilde colaboração: “Deus lembrou-se da sua misericórdia como “tinha prometido” a nossos pais, a Abraão e à sua descendência para sempre” (Lc 1, 55). As promessas feitas a Abraão são posteriormente reafirmadas e reinterpretadas pelos profetas e lembradas na preparação próxima da vinda de Jesus. Também Zacarias, pai de João Batista, recordou as mesmas promessas na alegria do nascimento de filho, proclamando outro hino admirável: “Bendito seja Deus que nos deu um salvador poderoso “conforme prometera” pela boca dos seus santos, os profetas dos tempos antigos”. Realmente a promessa suprema de Deus foi a de enviar um salvador que nos libertaria da força do pecado e do império da morte e tornaria possível a vitória do amor sobre o ódio, da verdade sobre a mentira, da fraternidade sobre o individualismo.

 

  1. Temos na primeira leitura deste primeiro domingo do Advento, um exemplo das promessas bíblicas narradas por Jeremias, um dos grandes profetas do Antigo Testamento: “Dias virão em que “cumprirei a promessa” que fiz à casa de Israel (…). Naqueles dias farei germinar um rebento de Justiça”, Na Sagrada Escritura, a justiça de Deus é mais ampla e profunda que a nossa, pois tem a ver com iguais direitos e dignidade de todos, com a proteção dos desvalidos e dos frágeis, É uma justiça envolvida pela misericórdia. Por seu lado, o evangelho deste domingo (Lc 21, 25-28. 34-36) diz-nos que até chegar a libertação definitiva teremos de passar por muitas tribulações, provas, desastres, medos. Realmente, apesar do avanço da ciência, as provações continuam a ameaçar a nossa segurança e tranquilidade. Mas Jesus recomenda que nos mantenhamos firmes na esperança que não engana (Rm 5,5). As promessas de Deus garantem-nos a libertação próxima. “Levantemos a cabeça”, recomenda o evangelho, olhemos para o futuro com esperança, porque Deus, através do Espírito Santo, derramou o Seu amor em nossos corações (Rm, 5.5-6)

 

  1. O Advento convida-nos a fazer uma peregrinação interior de despojamento de nós mesmos, das nossas comodidades e individualismo, para ir ao encontro do Senhor que vem até nós. Pede-nos oração e vigilância para descobrirmos o rumo que Ele nos indica de modo a alcançar libertação, fazer germinar a justiça e fortalecer a esperança de um mundo novo de paz, fraternidade e solidariedade.

 

D. Manuel Pelino * Bispo emérito de Santarém

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