Deus é amigo da vida

Reflexão de D. Manuel Pelino, bispo emérito de Santarém
1.Deus não fez a morte, Deus criou a vida e quer o bem das criaturas. A sua vontade é que tenhamos uma vida realizada, com qualidade e gosto de ser vivida. Então porque permite as calamidades, como a pandemia, o sofrimento dos inocentes, a força do mal presente em tantas guerras e catástrofes? O evangelho (Mc 5, 21-24; 35-43) e as leituras deste domingo XIII levam-nos a meditar e a encontrar alguma luz.
O evangelho apresenta duas situações em que a vida é ameaçada. O primeiro caso é de um pai, de nome Jairo, chefe da sinagoga local, que se prostra diante de Jesus e lhe suplica insistentemente que vá “impor as mãos à sua filha que está a morrer para que se cure e viva”. E Jesus vai, acompanhado de grande multidão. Pelo caminho, uma mulher que sofria de uma doença de sangue havia doze anos e havia gasto todos os seus bens recorrendo aos médicos sem alcançar a cura, procura aproximar-se e tocar-lhe sem se fazer notar. Em ambas as situações notamos a convicção de que Jesus tem poder sobre a vida, d’Ele irradia uma força curativa e revitalizadora. A mulher fica curada mas Jesus quer que a sua cura seja conhecida para que seja reintegrada na vida social e religiosa de que a doença, naquele tempo, a segregava. Quando Jesus chega a casa do chefe da sinagoga havia choro e lamentações como se a menina de doze anos já estivesse defunta. Jesus sossegou Jairo e afirmou aos presentes que “a menina não morreu, está a dormir”. Em seguida, levando consigo apenas o pai e os do seu grupo, “pegou na mão da menina e disse: “Talita Kum” que significa “Menina eu te ordeno levanta-te”. E a menina levantou-se imediatamente. As palavras de Jesus, conservadas em arameu, mostra que ficaram gravadas na mente dos discípulos.
2. Jesus veio para que tenhamos a vida em abundância, uma vida plena e bela. Deus criou-nos para vida e não para a morte, quer que a vida dos homens seja feliz e realizada. Então como entender a morte? A vida que Deus quer para nós é a vida eterna que começa neste mundo e tem a sua perfeição na eternidade. Pela fé e pelos sacramentos, recebemos a semente da ressurreição que cresce e desabrocha na plena comunhão com Ele, na bem-aventurança eterna. A morte é como um sono de que se acorda para a luz que não tem fim. “A menina dorme” e nós também havemos de adormecer na paz do último sono e acordar para a vida eterna.
3. “A glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a contemplação de Deus” (Santo Ireneu). Na eternidade contemplaremos Deus face a face. Mas já nesta vida mortal aprendemos a contemplar a Deus, a saborear a bondade e a beleza da graça divina manifestada em Jesus Seu Filho. Jesus torna acessível a contemplação do mistério de Deus. Se cultivarmos a leitura orante do Evangelho, de um salmo, ou de outro texto bíblico adequado, crescemos no diálogo e na relação de amizade e de união com Ele e contemplamos a Deus invisível a nossos olhos. Assim participamos e saboreamos a vida de Deus e aprendemos a dar atenção e a partilhar os nossos bens, o nosso afeto e a nossa vida com os que necessitam de ajuda, como ensina Jesus ao mandar “dar de comer à menina”. Que o Senhor nos ilumine para reconhecer os Seus dons e contribuir para a qualidade de vida de todos os Seus filhos.
D. Manuel Pelino * Bispo emérito de Santarém

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