Como Dom Helder combatia a perseguição política

‘A militância nossa de cada dia dá-nos hoje!’ Força integradora das vigílias espirituais era o trufo do ‘santo rebelde’

Dom Helder renascia a cada dia mais forte, à revelia da fragilidade corporal que aparentava.

Dom Helder renascia a cada dia mais forte, à revelia da fragilidade corporal que aparentava. 

“Que privilégio ter os olhos na noite escura, ter ouvidos no silêncio imenso para acompanhar o amadurecer das frutas e a formação do perfume no coração das flores!… Ir mais longe só se Deus permitisse acompanhar no íntimo do homem o nascimento do amor…” (Recife-PE, 21.3.1966)

Por Paulo Veríssimo, SJ

Experimentando um ambiente social e político de marcante polarização, com acirramento de ânimos e afirmações do ódio de todos contra todos, quando não parece haver concessões para nenhum lado, a tendência natural é a da fragmentação do tecido social e o enfraquecimento de forças (de algumas forças), especialmente aquelas cujos compromissos reflectem o interesse da colectividade e vão na contramão de investidas hegemónicas.

Durante grande parte do tempo em que foi arcebispo de Olinda e Recife (PE), entre 1964 e 1985, dom Helder Câmara experimentou com aguçado interesse um ambiente muito parecido com o que se desenha, ou que ainda se vive, no Brasil de hoje. A ditadura do regime militar, a perseguição política de lideranças populares, a abissal desigualdade da sociedade brasileira, os altos índices de desemprego e suas consequentes convulsões sociais, como a fome e a violência, feriam profundamente a vida do povo e, por isso, feriam também a dom Hélder.

Silenciado pelo regime por causa de suas duras e convictas palavras a favor da promoção da vida do povo, a ponto de não poder ser mencionado nos meios de comunicação social, dom Helder sempre encontrou ouvidos atentos à eloquente força das verdades que carregava no coração.

Sobre os esforços para desacreditá-lo quanto à legitimidade de sua causa, em discurso para universitários na Holanda, em 1973, dom Helder chegou a afirmar: “Quando um país cai numa ditadura, evidentemente não é fácil agir. Hoje, no mundo, não só no Brasil, não somente na ditadura, mas também na democracia, aqueles que trabalham contra as injustiças, aqueles que trabalham pela promoção humana são frequentemente chamados de subversivos e comunistas”. Insisto: para universitários na Holanda em 1973!

No entanto, contra toda força que se opunha ao seu corajoso ministério de bispo católico no nordeste brasileiro de então, dom Helder não recuou, nem mesmo quando, para atingi-lo, assassinaram em Recife, a 27 de maio de 1969, o padre António Henrique Pereira Neto, seu colaborador.

Mas de onde dom Helder tirava tanta força para seguir em frente? De que forma, ferido espiritual e psicologicamente, violentado pelas injustiças como seu povo, dom Helder pôde ser sinal de luz e esperança? Será que na experiência de dom Helder Câmara, as pessoas de boa vontade poderiam, hoje, encontrar um sinal que servisse de ponto de partida para uma nova marcha, o itinerário rumo a uma integração de todas as forças capazes de se reerguer contra todo abuso e violenta opressão?

É aqui, então, que nos aproximamos da fecunda vida espiritual de dom Helder e encontramos, afinal, a fonte de sua mística militante: as suas vigílias espirituais noturnas; o encontro pessoal e profundo com Deus, vivido quotidianamente, noite após noite, desde o contexto de sua ordenação como presbítero.

Vividas como tempo de mergulho no mistério de Deus, a quem dom Helder apresentava e oferecia os fragmentos da vida do povo e da sua própria vida, as vigílias espirituais que, como a Santa Missa, se estendiam ao longo de cada dia, tinham para o “Santo Rebelde” uma enorme força integradora. O jornalista e biógrafo de dom Helder, José de Broucker já testemunhou: “Ele me explicou em 1968 que suas vigílias nocturnas eram para refazer sua unidade. Ele dizia: “ontem eu tinha um braço para cá, uma perna pra lá, separado de mim mesmo, separado de Cristo, do Senhor”. Ele dizia que precisava da noite para refazer sua unidade com o Senhor”.

Quando os tempos são nebulosos como os de hoje, literalmente esfumaçados, e se torna difícil agir, dom Helder sugere uma volta às fontes mais profundas das próprias convicções e redescobre no encontro com o seu Senhor, no rosto sofrido e injustiçado de Jesus, o crucificado ressuscitado, a força do Evangelho da esperança e da libertação.

Era nas vigílias espirituais, no profundo silêncio da noite, que dom Helder escutava com aguda atenção a voz de Deus, fazia seu discernimento e abraçava com intrepidez a vocação profética que lhe era continuamente renovada. E tinha consciência das consequências que assumiria: “Depois de muita oração, acabei me decidindo por este texto, que me dará dor de cabeça. (…) Preferi a responsabilidade de trazer o tema à rua…”; assim dom Helder  iniciava o polémico discurso saudando dom José Maria Pires como novo arcebispo de João Pessoa-PB, em 26 de março de 1966.

Como o orvalho da aurora na esperança verde da natureza, dom Helder renascia a cada dia mais forte, à revelia da fragilidade corporal que aparentava. De baixa estatura, magro, franzino, bispo pobre, nordestino, certamente não encontrava maior apoio à sua militância senão aquele conquistado pelo coração, no amor a Deus e ao seu povo. Esse amor continuamente fragmentado, quotidianamente dado, partilhado na caridade encarnada em iniciativas concretas e corajosas, acabava por unificar também muitas mãos que, para o povo, eram as próprias mãos da providência de Deus.

Aos confusos e desesperançados, aos que buscam a esmo o rumo para onde direcionar o próximo passo, ousamos dizer que dom Helder, com carinho, os tomaria pelas mãos, olharia nos olhos com ternura e ensinaria esta prece, a ser acalentada no silêncio da noite: “A militância nossa de cada dia dá-nos hoje, Pai”. Eis uma das mais bonitas expressões da tradição espiritual místico-profética da América Latina.

Diariamente lemos o mundo na procura de sentido para encontrarmos a mensagem religiosa necessária para si. Fazemo-lo num tempo confuso que pretende calar o que temos para dizer. Sem apoios da nomenclatura publicitária, vimos dizer-lhe que precisamos de si porque o nosso trabalho não tendo preço necessita do seu apoio para continuarmos a apostar neste projecto jornalístico.

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