A missão vivida e testemunhada

Como missionário que sou, em Africa, no Chade, é normal que muitas das minhas conversas com familiares amigos, ou simplesmente, conhecidos, verse sobre a missão, a África, os países pobres, … E quando falamos de países pobres, da África, por exemplo, a nossa imaginação voa, tentamos visualizar o que deve ou pode ser. Somos ajudados nisso pelas imagens que a TV, de vez em quando nos mostra (geralmente noticias tristes, de fome, de guerra, …).

Em países africanos, por exemplo no Chade, onde estive de 1994 a 2004 e agora desde 2016, a pobreza não tem o mesmo significado que em Portugal. Em Portugal o que chamamos pobre, é o rico no Chade. O que no Chade é pobre, em Portugal é o miserável. O miserável no Chade, em Portugal não tem classificação.

A habitação, a comida, o vestuário, o trabalho, as formas de ganhar a vida, são muito diferentes das nossas. Muitas vezes me perguntei, como é possível viver-se assim? Que dignidade humana ultrapassa a miséria de uma vida sem nada? Como é possível tanta desigualdade no mundo, sabendo que o que há é mais que suficiente para todos?

 

Como sinto tudo isto? Sinto o que sente qualquer pessoa que ajuda alguém honestamente: alegria, felicidade, honra, dignidade, … experimente cada um ajudar alguém; o que sente? O mesmo que eu. Só que eu o faço provavelmente mais vezes, porque as circunstâncias assim o exigem.

Mas eu se ajudo alguém não é só porque me sinto bem, ou porque fico bem visto aos olhos dos outros, ou porque os outros são pessoas como eu. Para isso não é preciso ser cristão, muito menos ser padre ou missionário. Isso deve fazê-lo toda a gente. A minha ajuda é motivada pela minha fé em Jesus Cristo. Entendamo-nos bem: eu sou missionário não para ajudar, mas em primeiro lugar para testemunhar Jesus Cristo, anunciar a sua palavra, a sua vida. E é isso que me leva a ajudar.

“Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. A prioridade é a palavra, porque se a palavra de Deus habita o coração de cada pessoa, então não faltará comida, trabalho, alegria, roupas, medicamentos, etc.

Existem perigos? Existem os mesmos perigos que em qualquer lugar: doenças, desastres, catástrofes, injustiças, corrupção, abuso de poder. Mas isso é para toda a gente, não só para o missionário. São as situações de países onde quem tem algum poder, dinheiro, força, comanda os outros.

A isso pode juntar-se, em alguns países, a guerra ou a falta de segurança por falta de controlo do território. Então podemos encontrar situações de morte, de violência, tortura, que não existe em Portugal.

 

Dificuldades existem muitas como é evidente quando se vive num país diferente do nosso.

A primeira dificuldade começa logo com a língua para comunicar. A maioria das pessoas não fala nenhuma língua internacional. É preciso aprender as línguas locais, o que é muitíssimo difícil, porque são línguas não escritas (sem livros para poder aprender), muitas e variadas e de grau de dificuldade muito elevado porque são à base de uma construção diferente da nossa. Para nós missionários que somos homens e mulheres de palavra, de anúncio, de relações pessoais, isso é, talvez, a maior dificuldade.

Depois há o clima. Em certos países é terrível, seja pelo calor, pela humidade.

A isso junta-se as condições de vida precárias, isto é, a falta de condições de higiene, falta de hospitais e centros de saúde, falta de escolas, etc. Acrescenta-se a doença da malária, para a qual ainda não há medicamento preventivo fiável e que é a doença que mais mata no mundo.

E então o que se pode fazer? Eu costumo dizer que as pessoas que não são missionárias podem fazer tudo o que o missionário faz. Só que o devem fazer onde vivem. Ajudar todos podem ajudar uns aos outros se se consideram pessoas, homens e mulheres de verdade. Para os cristãos, além da ajuda, da caridade, há também o testemunho de fé que são convidados a partilhar com os outros.

0/a missionário/a é aquele/a que, antes de mais, partilha a sua fé em Jesus Cristo. Não leva muitas coisas para distribuir (medicamentos, comida, roupas…). Isso fazem as ONG. cada cristão, cada discípulo de Jesus pode e deve testemunhar e partilhar a sua fé com todos.

Outubro 2021

P. Leonel Claro, missionário Comboniano, em Sarh, no Chade

 

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