Tudo o que fizeres, fá-lo por amor

Somos facilmente levados por hábitos e tradições. Nem sempre nos perguntamos porque fazermos ou dizemos certas coisas na vida quotidiana e talvez mais na prática religiosa. Assim, muitos tornam-se cristãos de rotina e de formalidade e outros acabam por abandonar tudo, por acharem que as crenças e práticas recebidas já não fazem sentido. Na verdade, talvez nunca tenham experimentado a sua beleza e conhecido o seu significado. Onde está e como se manifesta o valor da fé e da prática cristã na nossa vida?

No evangelho (…), em S. Lucas, capítulo 11, versículos 37-41, ouvimos um relato eloquente. Um daqueles homens ferrenhos no cumprimento das tradições religiosas, um fariseu, ouviu a pregação de Jesus e terá ficado impressionado e até com desejo de falar com ele. Por isso, convidou-o para comer em sua casa. Jesus aceitou, entrou e sentou-se à mesa. O fariseu ficou admirado por Jesus não ter feito a purificação das mãos antes de comer, como é costume dos judeus, por motivo religioso. Certamente, fez-lhe notar essa falha. Jesus aproveita a ocasião para reprovar a duplicidade daqueles que são cuidadosos em certas práticas religiosas exteriores, mas têm o seu interior “cheio de rapina e perversidade”. Lembra que Deus é o criador tanto do interior como do exterior, que a prática religiosa supõe uma boa intenção e um coração puro. O convite à esmola, com que termina o diálogo, “constitui um exemplo concreto de como se pode expressar o discípulo de Jesus, de uma maneira unitária, uma espiritualidade, a evangélica, que se sintetiza perfeitamente na lei do amor”.

O verdadeiro valor da fé cristã e da sua prática não está nos atos exteriores, nas missas, nas orações, nos atos de devoção ou nas promessas e seu cumprimento. Está, sim, no amor a Deus e aos irmãos que arde no coração e leva a agir de modo consequente. Chiara Lubich afirmava: “Quando o íntimo do nosso ser for de Deus, também as outras coisas terão valor”. Assim, a participação na missa tem valor e pode encher o nosso coração da presença de Jesus e de alegria, se o fizermos por fé e amor. É também o amor que impele a tornar-se próximo dos outros, para os escutar ou ajudar, para se compadecer e partilhar, para compreender e tornar-se companheiro e mesmo irmão. Chiara Lubich dizia ainda: “O próximo passa ao nosso lado em cada momento! É Jesus. Meçam o vosso amor a Deus pelo amor que têm por cada próximo”.

Tens um exemplo deste modo de viver no beato Carlo Acutis, cuja memória se celebra hoje. Nasceu em 1991, morreu em 2006 e foi beatificado em 2020. Este jovem do nosso tempo sabia muito de computadores. Lia textos de engenharia informática, deixando todos admirados pelos seus conhecimentos. O que sabia punha-o ao serviço do voluntariado, para ajudar os amigos e para testemunhar a fé que vivia. “A sua grande generosidade, diz a mãe, levava-o a interessar-se pelos outros: os estrangeiros, os deficientes, as crianças, os mendigos. Estar perto do Carlo era estar junto de uma fonte de água fresca”. O Papa Francisco aponta-o também como exemplo na exortação apostólica dedicada aos jovens. Diz que “ele soube usar as novas técnicas de comunicação para transmitir o Evangelho, para comunicar valores”. E cita a frase do jovem beato, “todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias”, para exortar: “Não deixes que isto te aconteça”.

Agarra hoje este desafio: torna-te próximo de quem precisa e tudo o que fizeres, fá-lo por amor.

 

P. Jorge Guarda * Vigário geral * Diocese de Leiria-Fátima

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