O livre agir de Deus liberta-nos do sectarismo

Vivemos em tempo de feroz rivalidade e concorrência. Pessoas, grupos, partidos, clubes, empresas, em múltiplas atividades procuram sobrepor-se aos outros e ser os primeiros. Para se afirmarem, caem na tentação de negar o bem e o valor dos outros. Dai surgem facilmente sectarismo, intolerância, exclusivismos e outros males de que enferma quem assim se comporta. Nem mesmo as famílias e as comunidades religiosas estão livres desta atitude.
A Palavra de Deus da liturgia deste domingo revela-nos que Deus não age desse modo na sua relação com os homens nem a aprova. O livro dos Números (11, 25-29) relata como Deus envia o seu único Espírito tanto ao seu servo Moisés como aos que ele escolheu e estavam com ele na tenda de culto e também aos que não compareceram nela, ficando no acampamento. Instado a proibir o comportamento destes últimos, Moisés, em sintonia com o livre agir de Deus, rejeita o ciúme e declara o desejo de que “todo o povo fosse profeta e que o Senhor infundisse o seu Espírito sobre eles”.
Uma situação semelhante aparece no evangelho de S. Marcos (9,38-43.45.47-48). O discípulo João conta a Jesus que encontraram um homem “a expulsar demónios” em nome dele e tentaram impedi-lo, por não andar com eles. Discordando da proibição, Jesus corrige o discípulo, dizendo que ninguém pode fazer uma boa ação em seu nome e depois dizer mal dele. E conclui: “Quem não é contra nós, é por nós”. Para Jesus, os seus discípulos não têm a exclusividade para fazer bem nem para agir em seu nome. O seu Espírito pode manifestar-se para além dos limites da comunidade que o segue. O importante é fazer o bem, participar na missão de libertar quem é oprimido pelo mal. Comentando este episódio, o Papa Francisco diz: “João e os outros discípulos manifestam uma atitude de fechamento, diante de um acontecimento que não faz parte dos seus esquemas, neste caso, a ação até boa de uma pessoa «externa» ao círculo dos seguidores. Ao contrário, Jesus parece muito livre, plenamente aberto à liberdade do Espírito de Deus, que na sua ação não é limitado por confim nem espaço algum. Jesus quer educar os seus discípulos, e hoje também nós, para esta liberdade interior.”
Tirando o devido ensinamento e consequência para o nosso agir na comunidade e no mundo, o Papa diz ainda: “A grande liberdade de Deus ao doar-se a nós constitui um desafio e uma exortação a modificar as nossas atitudes e os nossos relacionamentos. É o convite que nos dirige Jesus hoje. Ele exorta-nos a não pensar segundo as categorias de «amigo/inimigo», «nós/eles», «quem está dentro/quem está fora», «meu/teu», mas a ir além, a abrir o coração para poder reconhecer a sua presença e a ação de Deus inclusive em âmbitos incomuns e imprevisíveis, e em pessoas que não fazem parte do nosso círculo. Trata-se de estar atento à genuinidade do bem, da beleza e da verdade que se faz, e não tanto ao nome e à proveniência de quem o pratica. E — como nos sugere a parte restante do Evangelho de hoje — em vez de julgar os outros, devemos examinar-nos a nós mesmos e «cortar» sem compromissos tudo aquilo que pode escandalizar as pessoas mais débeis na fé.”
O livre agir de Deus liberta-nos da tentação sectarista e intolerante. Podemos afirmar-nos de modo autêntico no reconhecimento do valor dos outros e na cooperação com eles, na alegria pelo bem, no diálogo e na partilha de dons e talentos. Assim nos enriquecemos uns aos outros e promovemos uma sociedade mais tolerante, justa, fraterna e solidária.
P. Jorge Guarda * Vigário geral * Diocese de Leiria-Fátima

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