A verdadeira grandeza

Há em nós o sonho de coisas grandes, o desejo de “um lugar ao sol”, a ambição de reconhecimento e aplauso. Ajudam a viver, a esforçar-se e a trabalhar com entusiasmo. Queremos mais e melhor. É bom que assim seja. Tudo isto se perverte, porém, quando a ambição, o poder e as grandezas dominam e, para satisfazer o próprio ego, se perde o sentido da realidade e o respeito pelos outros. Também nos cristãos e na Igreja entram a ambição do poder e a mania das grandezas.
Neste domingo, a Palavra de Deus (Mc 10, 35-45) vem ao nosso encontro para nos «converter», ou seja, segundo a etimologia grega, para «nos fazer mudar de mentalidade». Jesus oferece-nos uma nova orientação para a nossa instintiva sede de grandeza, ao desejo mais ou menos inconsciente de sermos importantes. Ele adverte-nos: «Não deve ser assim entre vós». E ensina-nos a aspirar a um tipo de grandeza pouco ambicionado: o do amor incondicional que se faz serviço humilde ao próximo, até dar a própria vida.
Tiago e João, os dois discípulos que pediram a Jesus para, na sua «glória» se sentarem um à sua direita e outro à sua esquerda, causando a indignação dos outros dez, são expressão do que também há em nós e que precisamos de corrigir. Comenta Santo Agostinho: “É uma grande coisa o que desejam, e não se lhes reprova pelo desejo, mas são chamados à ordem. Neles vê o Senhor o desejo das coisas grandes e aproveita a ocasião para ensinar o caminho da humildade. Os homens não querem beber o cálice da paixão, o cálice da humilhação. Desejam coisas sublimes? Que amem as humildes. Para ascender ao alto é preciso, com efeito, partir de baixo. Ninguém pode construir um edifício elevado se antes não pôs em baixo o cimento”. De facto, o estilo de vida e de comportamento ensinado por Jesus viveu-o Ele próprio, pois, como disse, veio para servir e não para ser servido. É assim que devem viver os cristãos e a Igreja: a sua verdadeira grandeza está no serviço por amor. É através de relações fraternas e de ações de amor, ajudando-se uns aos outros e em particular aos mais frágeis que se concretiza o serviço.
Todos na igreja são chamados a viver o serviço, a começar pelos ministros ordenados. Servir é sinónimo e concretização do amor. Para o ser de verdade tem que despojar do desejo de poder ou da ambição de um lugar de honra ou da satisfação de interesses pessoais ou de reconhecimento. Na vida eclesial, familiar ou profissional, o serviço é a ação em favor dos outros ou do bem comum. Faz-se o que se tem a fazer e do melhor modo de que se for capaz por amor a Cristo, aos outros e à comunidade. Este estilo de vida torna-se crítico e deverá denunciar as mundanas tentações de poder e as ambições de domínio ou de riqueza e os abusos e corrupções a que levam.
«Sabeis que os que são considerados como chefes das nações exercem domínio sobre elas e os grandes fazem sentir sobre elas o seu poder. Não deve ser assim entre vós: Quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo». Não é fácil, é certo, mas é, para Jesus, o caminho da verdadeira grandeza, aquela que conduz ao reino de Deus e constrói a fraternidade entre as pessoas humanas.
P. Jorge Guarda * Vigário geral * Diocese de Leiria-Fátima

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