Sínodo 2023: tomar a palavra

Do documento preparatório do Sínodo: “Todos são convidados a falar com coragem e parrésia, ou seja, integrando liberdade, verdade e caridade. Como promovemos, no seio da comunidade e dos seus organismos, um estilo comunicativo livre e autêntico, sem ambiguidades e oportunismos? E em relação à sociedade de que fazemos parte? Quando e como conseguimos dizer o que é deveras importante para nós? Como funciona a relação com o sistema dos meios de comunicação (não só católicos)? Quem fala em nome da comunidade cristã e como é escolhido?”. Este parágrafo do documento é paradigmático do que se pretende com o sínodo, ao pedir que nos seios da comunidade exista um “estilo comunicativo e autêntico”, o que significa que se deve falar o que se pensa, mesmo que seja um “autêntico disparate”. Não está a igreja católica-romana e as suas estruturas habituadas a falarem assim, fala-se, mas com “ambiguidades e oportunismos”, não autenticamente, mas a fim de agradar quem está ao comando. E se relativamente ao interior da igreja é assim, muito mais no seu exterior. Por isso mesmo à pergunta como é escolhido, a resposta é esta: é escolhido quem não costuma dizer não! Dizer não é uma escolha como dizer que sim, desde que o nosso entendimento seja honesto e tenha uma alternativa. Jesus ouvia quem clamava por ele, quem queria falar com ele, e não se zangava, acolhia e nem sequer escolhia, desde crianças a adultos cegos, Jesus a todos ouvia e respondia, mas agora, e neste tempo, ouve-se quem concorda sempre porque quem não concorda é colocado à margem, dado ser um desordeiro. Assim, às perguntas acima, não existem coisas importantes ou menos importantes, mas existe aquilo que o poder quer. Começamos com as nomeações, quem as faz? O bispo diocesano, que, ao que sei, não tem de ouvir ninguém, designa e pronto; pois é esta comissão que elabora as de páginas de conclusões, dez, que serão triadas pela comissão episcopal, reduzindo as opiniões, também, a dez páginas. Quem discorda, fica de fora, não é inclusivo.

Não sei o que o Povo de Deus, se for ouvido!, vai dizer, há muitas questões que deveriam ser analisadas, para que o mundo oiça. As questões do celibato obrigatória ou a ordenação de mulheres, já discutido no Sínodo da Amazónia, e que não teve um parecer negativo de Francisco. O que nos diz a Tradição e a Razão a este respeito, se não que o caminho que estamos a seguir não é o melhor?

Deixemo-nos de falar de “anjos” e vamos ao concreto, àquilo que o Espírito de Deus deverá querer, penso, para a Igreja. E o Espírito fala por todos e todas, não basta afirmar que ele atua por quem quer, onde quer e como quer, mas é preciso escutá-lo e não ter medo.

O celibato dos padres e bispos obrigatório é uma disposição contranatura. A Tradição fala-nos de apóstolos casados, por exemplo, Pedro, a primitiva igreja tinha presbíteros casados e mulheres ordenadas. Só a partir de determinada altura a organização eclesiástica ordenou o celibato obrigatório e a não ordenação das mulheres, por motivos válidos, talvez, para aquela altura histórica, mas totalmente desajustados para o nosso mundo de hoje. Mesmo com a determinação do celibato obrigatório são muitos os padres que não se casavam, mas tinham as suas mulheres e filhos. Hoje é também em muitos casos assim, o Povo de Deus não contesta isso, até diz: “ao menos deste sabemos qual é a mulher”.

Não existe, que conheça, nenhuma razão bíblica ou teológica ou doutrinária, que obrigue ao celibato obrigatório ou à não ordenação das mulheres.

Aqui estão dois bons temas para a reflexão, com caridade, ouvindo os “inoportunos” e aqueles que são oportunos, isto é, que dizem que assim é que está bem, porque “sempre foi assim”. Questões que fraturam, pois são, mas mesmo assim a ser analisadas, aprendendo com tantas tradições religiosas que já o fazem, e não é uma questão de oportunismo pela “falta de padres”, mas sim o do exercício pleno de filhos e filhas de Deus.

 

Joaquim Armindo  *  Pós-doutorando em Teologia  *  Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental  *  Diácono – Porto

 

 

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