Os muros de arame farpado

Nestes tempos de Natal vale a pena descobrir os “muros de arame farpado” que se escondem pelo mundo, e, para isso, nada mais, nada menos, que dar a palavra ao bispo de Roma e papa Francisco, a uma pergunta do jornalista Manuel Schwartz, aquando da visita do papa à Grécia e a Chipre, na viagem de retorno, em conferência de imprensa ainda dentro do avião. A esta pergunta respondeu Francisco: “A propósito de quantos impedem as migrações ou que fecham as fronteiras (agora está na moda construir muros, fazer barreiras de arame farpado, incluindo o arame com as concertinas – o arame farpado enrolado em espiral –; os espanhóis sabem o que isso significa, pois é habitual recorrer a tais coisas para impedir o acesso), a primeira coisa que diria se tivesse à minha frente um governante: “Pensa no tempo em que foste migrante e não te deixavam entrar, quando tu querias fugir da tua terra, e agora és tu que constróis muros!” Isto ajuda, porque quem constrói muros, perde o sentido da história, da sua própria história, de quando era escravo doutro país. Nem todos têm esta experiência; mas uma grande parte, pelo menos, daqueles que constroem muros, tiveram esta experiência de ter sido escravos. Se a pessoa me retorquisse: “Mas sabe que os governos têm o dever de governar e, quando vem uma onda assim grande de migrantes, não se pode governar”, eu acrescentaria isto: Todo o governo deve dizer claramente: “Eu posso receber até… (o n.º x)”, porque os governantes sabem a quantidade de migrantes que são capazes de receber. É direito deles, isto é verdade. Mas os migrantes hão de ser acolhidos, acompanhados, promovidos e integrados. Se um governo não puder fazer isso, deve conversar com os outros de modo que cada um dos outros se ocupe deles. Para isto é importante a União Europeia, porque esta é capaz de criar harmonia entre todos os governos para a distribuição dos migrantes. Mas pensa em Chipre, na Grécia, em Lampedusa, na Sicília: chegam os migrantes e não há um acordo entre todos os países da União Europeia para mandar estes para aqui, aqueles para ali… Falta esta harmonia geral.”

E continuou ainda: “E a última palavra que eu disse foi “integrados”, certo? Devem ser acolhidos, acompanhados, promovidos e integrados. Integrados, porquê? Porque se não integras o migrante, este terá uma cidadania de gueto. O exemplo – não sei se já referi isto alguma vez no avião –, o exemplo que mais me impressiona é a tragédia de Zaventem: os adolescentes que fizeram o massacre no aeroporto eram belgas, mas filhos de migrantes guetizados, não integrados. Se não integras um migrante – com a educação, o trabalho, a assistência sanitária –, corres o risco de ter um guerrilheiro, alguém que te faz tais coisas. Não é fácil acolher os migrantes, não é fácil resolver o problema dos migrantes; mas se não resolvermos o problema dos migrantes, arriscamo-nos a fazer naufragar a civilização. Hoje, na Europa, do jeito que estão as coisas, não naufragaram apenas os migrantes no Mediterrâneo, mas também a nossa civilização. Por isso, é preciso que se ponham de acordo os representantes dos governos europeus. Para mim, um modelo de acolhimento e integração foi – a seu tempo – a Suécia, que acolheu todos os migrantes latino-americanos das ditaduras militares: chilenos, argentinos, uruguaios, brasileiros… Acolheu-os e integrou-os. Hoje estive numa escola, em Atenas e, ao contemplar os presentes, disse ao tradutor: “Olha! Aqui temos – usei uma expressão familiar – uma “salada de fruta” de culturas! Estão todos misturadas…” E ele respondeu-me: “Isto é o futuro da Grécia”. A integração. Crescer na integração. É importante. E gostaria de sublinhar ainda outro drama: os migrantes, quando estão para vir, caem nas mãos dos traficantes que lhes tiram todo o dinheiro que têm antes de os fazerem subir para a nave. E se forem mandados voltar para trás [repelidos], quem os recebe são os mesmos traficantes. No Dicastério para os Migrantes [o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral – Secção Migrantes e Refugiados], existem vídeos com o que sucede nos lugares aonde vão parar os migrantes repelidos. Do mesmo modo que não se pode acolhê-los e abandoná-los, porque devemos acompanhá-los, promovê-los e integrá-los, também se eu mando voltar para trás um migrante devo acompanhá-lo, promovê-lo e integrá-lo no seu país, não o deixar na costa líbica. Isto é uma crueldade. Se quiserdes mais elementos sobre isto, pedi ao Dicastério das Migrações que tem estes vídeos. E existe também um filme, intitulado Opens Arms – conheceis-lo, com certeza! –, que é um pouco romântico, mas mostra a realidade de quem se afoga. É uma coisa que mete pena. Mas a civilização está em perigo, corre risco a civilização!”.

Deixo este texto assim, sem quaisquer comentários, dado não serem necessários.

 

Joaquim Armindo  *  Pós – Doutorando em Teologia  *  Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental  *  Diácono – Porto

 

 

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