O humanismo necessário

Ao dirigir-se à Assembleia Plenária do Conselho Pontifício para a Cultura, reunida em “universo digital”, o bispo de Roma, papa Francisco, lembrou o sinal dos tempos em que vivemos, sem o “calor da presença” das pessoas que a compõem e, portanto, sem os olhos nos olhos que as presenças não-virtuais transmitem, constatou que “o humanismo bíblico e clássico hoje deve sabiamente se abrir para acolher, em uma nova síntese criativa, também as contribuições da tradição humanista contemporânea e de outras culturas. Estou pensando, por exemplo, na visão holística das culturas asiáticas, na busca da harmonia interior e da harmonia com a criação. Ou na solidariedade das culturas africanas, para superar o individualismo excessivo típico da cultura ocidental. Também é importante a antropologia dos povos latino-americanos, com seu vivo sentido de família e festa. Bem como as culturas dos povos indígenas de todo o planeta. Nessas diferentes culturas existem formas de um humanismo que, integrado no humanismo europeu herdado da civilização greco-romana e transformado pela visão cristã, é hoje a melhor maneira de lidar com questões preocupantes sobre o futuro da humanidade. De fato, “se o ser humano não redescobre seu verdadeiro lugar, ele se interpreta mal e acaba contradizendo sua própria realidade” (Laudato si ‘ , 115).” Recolhamos a centralidade que Francisco dá à cultura enraizada em cada povo, e sem ela os povos ficam emagrecidos e sujeitos às mais diversas pandemias que assolam o nosso mundo. Não me refiro a que a pandemia do COVID -19 não seja de uma importância vital para o nosso reconhecimento humano, mas a que os povos quanto mais iliteratos forem o seu consentimento de rejeição às práticas para vencerem as diversas pandemias é profunda, e aos seus tratamentos, até porque estão desconfiados da ciência.

Embora os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) cometam o erro de não enunciarem a cultura como um pilar essencial ao desenvolvimento cósmico, ela aparece diluída pelos outros três pilares, o económico, o ambiental e, essencialmente, pelo social; mas se a centralidade do objeto da Sustentabilidade reside nestes três pilares, o cultural – embora muitíssimas figuras, estejam já de acordo, com a sua acentuação-, é necessário que permaneça como um dos mais importantes instrumentos para a realização da plenitude humana, porque é lá que residem todas as obstruções ao caminho que vamos fazendo em conjunto, centralizando a cultura como objeto de uma vivência comunitária de todos os povos. Sem ela, sem os hábitos e literacias vividas no âmbito das certezas tradicionais, os povos perdem a sua capacidade de se deterem naquilo a que chamamos o Bem – Viver, em contraponto ao Viver – Bem. Insisto, porque tenho insistido muito, que esta troca de palavras não existe para pronunciamentos académicos, mas porque sem a cultura não chegaríamos ao epicentro da vida humana, que somos nós próprios. Por isso, atrevo-me a dizer que com uma cultura enraizada nos povos a COVID-19 poderia já ter desaparecido.

“Além disso, a pandemia pôs em causa muitas das certezas em que se baseia o nosso modelo social e económico, revelando as suas fragilidades: as relações pessoais, os métodos de trabalho, a vida social e mesmo a prática religiosa e a participação nos sacramentos. Mas também, e sobretudo, reconsiderou com força as questões fundamentais da existência: a questão de Deus e do homem.” – continuou Francisco na sua mensagem, por isso mesmo é que “O Humanismo Necessário” – o tema da Assembleia -, é que, neste momento histórico, que não precisamos mais de novos programas económicos ou novas receitas sociais, mas de uma perspetiva humanista e a “reflexão sobre a pessoa humana presente em diversas culturas”.

O poder desta perspetiva humanista que encontra as suas raízes numa ética cultural, desembocará numa amizade entre os povos; isso mesmo compreendemos quando dizemos que o COVID 19 não desaparecerá sem todos os povos estarem vacinados. É nessa perspetiva humanista, que se fundamenta, para nós cristãos e cristãs, na Revelação Bíblica, do ser Encarnado, que encontramos as traves culturais do nosso caminho.

Ou seja, sem a cultura, sem povos literatos, não conseguiremos vencer os desafios que se nos colocam hoje.

Joaquim Armindo  *  Pós – Doutorando em Teologia  *  Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental  *  Diácono – Porto

 

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