A Igreja vai ou tu tens de vir?

Não sei se um cristão tem direito à indignação! Tantas vezes que me sinto indignado, não serei eu cristão? Em tantas ocasiões me zango com Deus, porque não me hei de zangar ou indignar com os outros cristãos? É engraçado quando me zango com Deus, ficamos sempre amigos; então posso zangar-me com outra pessoa e ser sua amiga. Aliás, a zanga é uma prova de amizade e carinho, uns preocupam-se com os outros, e assim sucessivamente. Bem, esta conversa toda, para dizer o quê? Que esta semana me zanguei com um senhor bispo, vá lá que ele não sabe, só eu é que sei, por isso não vão existir quaisquer problemas. Não é que ele veio declarar que a Igreja está aberta a todos, para serem ouvidos sobre o Sínodo 2023, se quisessem e viessem ter com a Igreja. Não gostei, francamente. E eu que pensava que já estava determinado que a igreja não ficava nas “sacristias” e ia à procura de quem quisesse falar com ela. O que é precisamente o contrário daquilo que o senhor bispo português proclamou. Isso traz tristeza, porque afinal não somos nós que vamos à procura de evangelizar – evangelizando os outros, estamos também a ser evangelizados -, mas são as pessoas que procuram a felicidade da vida, por outros meios que não Jesus, que nos devem procurar. No caso concreto do Sínodo as pessoas que contribuem para a reflexão sobre o que vivemos, que se afastaram da igreja, tantas vezes por boas razões, e que querem contribuir com a sua experiência, falhada, para o repensar a Igreja, que se aproximem, nós não teremos que o fazer.

Há duas opções da Igreja em Portugal, ou vai aos caminhantes fora da Igreja hierárquica, ou vai continuar sentada nos bancos das sacristias e pensar que todos e todas se vêm ajoelhar à igreja que hoje existe, e que, repetidamente, forjam dogmáticas fora dos contextos atuais, e não respeitam sequer as Tradições das comunidades primitivas. Afogar o Sínodo em “embalagens” feitas à medida daquilo que as pirâmides onde os hierarcas estão primeiro. Isso é fantasiar o “cheiro a ovelhas”, porque não se posicionam no meio do Povo de Deus, mas esperam que este se submeta àquilo que consciências “bem formatadas”, decidam do alto dos seus cadeirões.

A Igreja, e neste concreto momento, do Sínodo, tem de caminhar à procura dos desiludidos com os atos e omissões de que a Igreja é pródiga, do abandono dos mais fracos, da ostentação, da caridade feita poder, e que não é amor, nem serviço, mas debilitadora da inclusão. Fala em inclusão, alguns, mas neles se manifesta o prazer da integração. Temos todos e todas de reconhecer os erros cometidos e procurar, não converter ninguém, mas que o Evangelho se espalhe por todos os cantos da terra.

Afirmar que quem entender deverá vir ao encontro da Igreja, é virar o jogo ao contrário, dar a perceber que a Igreja – a hierarquia -, nunca pecou, mas foram os outros, os que nunca tiveram voz, nem vez, que se afastaram, o que é indubitavelmente incorreto. Muitos dos “outros” daqueles que deixaram a Igreja pelos malefícios que ela praticou, é que “devem vir” pedir para se explicarem; isto não é mais de que nunca terem percebido que não basta mudar a linguagem, mas será necessário que os atos praticados correspondam à verdade evangélica. Ninguém, de boa-fé, tem medo de clarificação dos atos da Igreja, nem dos seus pastores, o que se pretende é que partamos para a audição do Povo de Deus, e de todas as pessoas que buscam a verdade, mas que nada querem com uma Igreja massificada pelos poderes, tantos deles ocultos. Temos visto a corrupção na Igreja, temos sentido a pedofilia, sabemos os poderes que os seus representantes possuem para denegrir a imagem do Senhor Morto, Ressuscitado e Aparecido, mas este Sínodo a todos receberá se contritamente estivermos certos de que o Espírito do Senhor constrói uma nova Terra, como quererá uma nova Igreja, baseada nos valores de Jesus.

Assim, ninguém tem de vir ao encontro da Igreja, para dizer o que pensa sobre o Sínodo, a Igreja é que tem o dever de caminhar junto dos homens e das mulheres, não acima, nem abaixo, mas ao lado. Vem a desproposito o que afirmou o bispo português, porque se assim fizerem adeus Sínodo que o Espírito do Senhor não estará aí.

 

Joaquim Armindo  *  Pós- Doutorando em Teologia  *  Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental  *  Diácono – Porto

 

 

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