A mulher e a Igreja: que futuro?

Vivemos numa sociedade tecnológica que quebrou com o iceberg do feminino reduzido ao lar e à lógica de cuidar da vida, de cuidá-la e de ajudá-la a crescer. Hoje, as mulheres querem participar no mundo da política, da economia e da religião. Então fica pouco tempo para a eloquente função, que fazia delas o maior ser carinhoso que a humanidade já viu. A mulher é a gratuidade em pessoa. Ela é quem reproduz a vida e a alimenta sem querer nada em troca.

A própria sociedade olhou para si e viu que, sem a lógica da gratuidade, está condenada a morrer. Como podemos aplicar o feminino da lógica do dom da vida à vida pública, eclesial, económica e política?

Todavia, não se pode prender as mulheres em casa e fazer delas “parideiras da humanidade”. Tem que respeitar-se a sua dignidade e permitir-lhes que façam aquilo que é e pode ser próprio da constituição física, psicológica e afectiva.

A sociedade tornou-se a topia do masculino ao longo dos tempos. O homem reinou tempo de mais sobre esta bola azul e a mulher chegou para dizer que agora é a vez de equilibrar as coisas, no mundo da política, da economia, da saúde, do ensino e quem sabe da religião.

A problemática do lugar das mulheres na Igreja está carregada de um conjunto de emoções e de um certo sentimento de libertação como se tratasse de uma escrava que anseia por libertar-se das correntes de ferro velhas que a prendem há muito tempo. Cada produção teológica acerca desta temática é como um filho que nasce, que depressa fica órfão de pai, porque ninguém o aceita na prática. E assim as mulheres vivem entre o medo e a suspeita, porque o magistério da Igreja não tem pressa em dar uma resposta verdadeira aos “partos” teológicos que vão acontecendo em redor desta questão.

A história faz-se de memória e esquecimento de tudo aquilo que acontece. Os relatos dignos de registo ficam para sempre na memória da tradição ou dos livros, que ao longo dos anos se foram escrevendo. A história dos homens não é uma manta de retalhos, que eles edificaram para si. Contudo, as histórias das mulheres são apenas alguns retalhos, porque, segundo os homens, o que as mulheres faziam, não tinha importância nem era história.

A este respeito, a historiografia cristã, seguindo os critérios comuns de pesquisa, contribuiu notavelmente para deixar na sombra o papel da mulher. Se hoje alguém tentasse compilar a história das mulheres na Igreja, não teria muitas fontes e teria muita dificuldade em apresentar um trabalho profundo e sistemático. A Igreja limitou-se a tomar a mesma postura que a sociedade, na qual a “mulher não contava como forjadora de acontecimentos.” Elas ainda são a maioria silenciosa e a maioria silenciada. A Igreja, com a sua moral evangélica, com a sua doutrina eloquente e rodeada de arte e cultura viveu no meio do drama de muitas mulheres, violadas pela solidão e pela escravatura, com a consciência tranquila, e cometia o seu delito sem qualquer vergonha, quase inconscientemente, como que por dever.

É certo que a postura da Igreja deve-se, em grande parte ao ambiente que se respirava noutros tempos. Este argumento pode justificar alguns erros do passado, mas não justifica os do presente.

Não sendo demasiado pessimista, liberto-me do erro de velar a história do passado relativamente a mulheres valentes que deram um enorme contributo para vida da Igreja. Esta, sendo mãe, soube acolher com muita ternura os conselhos delas e a colocá-los em prática. A história das mulheres valentes continua a ressoar nos pergaminhos da biblioteca secreta do Vaticano e nos corações de quem é Igreja e faz Igreja.

Nem tudo foram amarguras e tristezas para a mulher no seio da Igreja. Não nos podemos esquecer que, para além dos diversos movimentos feministas, foi a Igreja Católica, na pessoa de alguns membros, que gritou, bem alto nas praças do escândalo e nas ruas da vergonha, pelo “estatuto emancipado da mulher.

Falar da participação da mulher á luz do tempo presente, na vida eclesial, é jogar com o permitido e o não permitido de mãos dadas. Como sabemos, o direito canónico não abre nenhuma possibilidade para as mulheres poderem receber qualquer ministério, mesmo que seja uma religiosa com votos perpétuos. As mulheres estão proibidas de pregar e elaborar a política eclesiástica ou a doutrina da Igreja. Esta exclusão cria muitos problemas.

No entanto, verificamos que nas assembleias litúrgicas são quase sempre as mulheres que proclamam a Palavra de Deus. Então, a Igreja deve reconhecer o serviço que pode ser realizado pelas mulheres e não deixá-las num estatuto inexistente, fora do clero e fora do laicado, embora estando extremamente activa dentro dela. Frequentemente, a função da mulher aparece apenas como de auxiliar.

Sendo assim, no seio da Igreja a mulher exerce um ministério eclesial muito próprio que é fruto de um conjunto de carismas espontâneos e livres, contribuindo para uma variedade una e globalizante no interior da Igreja. Tornando esta rica e humanamente possível.

O papel da mulher na Igreja ainda está em estudo e seria uma perda para a Igreja não encarar a evolução desse mesmo estudo. A mulher deverá, desde já, assumir responsabilidades na vida eclesial e tentar procurar a melhor forma de agir, para que a comunidade se possa enriquecer com as suas tarefas. Ela não deverá ficar no silêncio do lar, à espera que chamem por ela, mas deverá agir apaziguando, como outrora, os ódios da história, reconciliar a pessoa humana com a vida, salvá-la da escravidão da máquina, velar pelo futuro da humanidade ameaçada, tornando esta mais humana e deverá evangelizar e catequizar como tarefas primordiais do ser crente.

A função da mulher na Igreja é um desafio aberto aos sinais dos tempos, numa linha de consciencialização perene. A Igreja não pode caminhar mais a reboque das circunstâncias, numa sociedade em que um dos sinais dos tempos é a emancipação das mulheres. Por isso, deverá reconhecer à mulher uma parte mais ampla nos órgãos centrais de deliberação e consulta que dirigem a vida da Igreja. Os sinais dos tempos ajudam-nos a viver o presente como algo de autenticamente providencial.

A mulher também tem direito de descobrir o que Deus pensa dela e de agir em razão dessa reflexão. Temos que colocar a mão no arado da luta contra toda forma de descriminação e não podemos voltar atrás. A Igreja deverá dar possibilidade à mulher de fazer-se ouvir nas conferências episcopais e nos dicastérios romanos.

Podemos dizer que a realidade mudou muito, pois á trinta anos atrás era impensável ver uma mulher nas Universidades romanas de Teologia, Direito Canónico e de Sagrada Escritura. Eram lugares de clausura, reservados exclusivamente para homens. Hoje, as salas dessas escolas romanas estão repletas de mulheres e das teses mais eloquentes.

Não haverá futuro para uma Igreja que não assume a questão da reciprocidade homem-mulher com nova coerência. Não há futuro para uma Igreja com medo da diferença, que considera as cidadãs de segunda classe. Há uma redescoberta a fazer da capacidade da mulher ler o que acontece, de compreender o mundo e a voz de Deus.

Este milénio será um teste de verdade para a Igreja: alinhará ela no desespero e desânimo ou caminhará no rumo da Esperança? Estou ansioso por escrever a história dos próximos tempos.

 

 

P. João Torres * Pároco da Unidade Pastoral de Guizande, Priscos e Tadim * Arquidiocese de Braga

pdejoaotorres@hotmail.com

Diariamente lemos o mundo na procura de sentido para encontrarmos a mensagem religiosa necessária para si. Fazemo-lo num tempo confuso que pretende calar o que temos para dizer. Sem apoios da nomenclatura publicitária, vimos dizer-lhe que precisamos de si porque o nosso trabalho não tendo preço necessita do seu apoio para continuarmos a apostar neste projecto jornalístico.

Deixe uma resposta

*