Nós não temos fé; a fé é que nos tem

 

  1. Quem não falha uma romaria, mas falta sempre à Eucaristia, terá fé?

Quem venera as imagens de Nossa Senhora e dos Santos, mas sem parar diante do Sacrário, terá fé?

 

  1. O problema reside precisamente aqui, em «ter» fé. É que na fé não se trata de «ter», mas de «ser tido».

Quem «tem» fé propende a fazer a sua vontade, mesmo em relação a Deus. Já quem «é tido» pela fé procura dar prioridade à vontade de Deus (cf. Mt 6, 10).

 

  1. É a diferença entre uma qualquer promessa e participar na Eucaristia.

No primeiro caso, estamos diante de uma decisão pessoal. No segundo, encontramo-nos perante a resposta a uma proposta: «Fazei isto em memória de Mim» (1Cor 11, 23).

 

  1. Os sentimentos religiosos de cada um merecem, sem dúvida, o maior respeito.

Mas a fé é outra coisa: é fazer, não necessariamente o que nos apraz, mas o que Deus — em Cristo pela Sua Igreja — nos indica.

 

  1. A fé não é possessiva, mas oblativa.

Assim, sendo, não somos nós que temos a fé; a fé é que nos tem, a nós.

 

  1. Não é o homem que se impõe a Deus; é Deus que Se propõe a nós.

Até Roger Garaudy percebeu que «a fé está em nós, mas não é de nós». É por isso que, na fé, não existe «autarquia», mas uma «autonomia teónoma».

 

  1. A iniciativa não nos cabe a nós; quem toma a iniciativa é Deus (cf. Ap 3, 20).

Neste sentido, a fé consiste em viver «ad Deum» (para Deus), «secundum Deum» (segundo Deus) e «in Deo» (em Deus).

 

  1. A Igreja é fundamental para a fé.

Aliás, é o que os nossos lábios afirmam. No Credo, proclamamos que «cremos em Deus» e professamos que «cremos em Igreja».

 

  1. O latim estabelece uma distinção que nos ajuda a compreender o que estamos a dizer.

Enquanto Deus é precedido de «in» («Credo in Deum»), a Igreja aparece logo a seguir a «Credo» («Credo Ecclesiam). Isto significa que «cremos em Deus “dentro” da Igreja».

 

  1. Duas palavras bíblicas ilustram a solidez da fé: «emunah» e «ámen». Com a primeira, expressamos firmeza e lealdade. Com a segunda, sinalizamos adesão e disponibilidade.

Jesus é o grande «ámen» do Pai, a «testemunha fiel e verdadeira» (cf. Ap 3, 14). Que, em Jesus, vivamos sempre para Deus!

 

P. João Teixeira * Reitor do Santuário de N.ª Sr.ª dos Remédios * Lamego

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