Francisco uma luz que não se apaga

Recordo com muita clareza que, em criança, sentia uma predileção muito particular pelas luzes que adornavam o presépio da Catedral de Nossa Senhora de Fátima, em Nampula, Moçambique. Visitava-o sempre no dia de Natal depois da Eucaristia, acompanhado pelos meus pais e pela minha irmã. Muitas vezes estonteado pela beleza daquela claridade, imaginava se não eram as estrelas do céu, que desciam para aquecer o Menino Jesus.

A luz é verdadeiramente o que nos identifica e nos revela, ao mesmo tempo que se torna também a nossa segurança, de tal forma que, quando estamos num espaço desconhecido ou até conhecido, perante a escuridão, procuramos sempre algo que o possa iluminar.

Como sacerdote, gosto de saborear que a grande missão do pequeno Francisco foi iluminar as noites da humanidade com a Luz de Deus, que vislumbramos no desabafo que tem com as outras duas pastorinhas, logo após a Aparição do mês de julho: “Gostei muito de ver Nosso Senhor. Mas gostei mais de O ver naquela luz onde nós estávamos também.”A Luz de Deus que o envolve é a origem de todo o seu agir, aprendeu nesta mesma Luz Divina a contemplar o eterno e o mundo, por isso nos ensina que todo o bem anunciado e partilhado é sempre adoração.

O Francisco, nunca viveu num mosteiro, nem foi frade de clausura, foi apenas uma criança como tantas outras do seu tempo, que descobriu no silêncio interior e benfazejo um diálogo de profunda amizade com o seu Amigo Escondido. Tudo em si irradiava desta relação como caminho e encontro, cada momento era um passaporte para contemplar, fazia-o na sua casa, em família, nos gestos ternos da sua mãe, em cada refeição, em cada palavra, em cada olhar, no seu colo quente. Fazia-o durante a noite no sobressalto do seu coração, ao som da voz do seu pai que sussurrava: porque choras Francisco? Fazia-o no campo, na agreste Serra de Aire, entre ovelhas e silvados, ao som do seu pífaro, tendo o céu como teto da sua grande candeia. Fazia-o com a sua irmã e a sua prima, nos segredos incontáveis dum amor novo chamado paz. Mas fazia-o sobretudo na intimidade do tabernáculo, que visitava loucamente na igreja paroquial, oferecendo a sua presença, o seu sorriso, as suas dores e inquietudes, o seu ser, já oração. Nesta atitude descobriu a chave do mistério ao tornar-se peregrino e mensageiro do santo terço.

Esta foi a sua bandeira trespassada pela Luz que vem do Alto, que em si não se apaga, moldou a sua vida num único itinerário, na meditação dos mistérios da vida de Cristo: “Ó minha Nossa Senhora, terços, rezo todos quantos Vós quiserdes.”, traduzindo toda a sua existência e cada gesto seu, numa amorosa e fecunda  recitação contemplativa.

 

P. João Silva * Arquidiocese de Évora

 

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