Bullying e boa educação

O Papa Francisco, no Twitter, publicou no passado dia 8 uma inspiradora mensagem, a propósito do começo de mais um ano lectivo: “A educação é um dos caminhos mais eficazes para humanizar o mundo e a história. A educação é sobretudo uma questão de amor e de responsabilidade, que se transmite no tempo, de geração em geração.”
Nos meus tempos de menino e moço havia alguma violência por parte dos professores – as famosas reguadas, a palmatória dos cinco olhos, etc. – bem como esporádicas brigas entre estudantes que, como as tempestades de verão, tão depressa rebentavam como desapareciam, sem deixar rastos na nossa despreocupada e feliz camaradagem estudantil. Muitos anos volvidos sobre o meu tempo de estudante no dominicano Colégio Clenardo e no Liceu Pedro Nunes, de que também fui aluno, só guardo boas recordações. Não me lembro de nenhum episódio de bullying, mas não devem ter faltado.
A verdade é que sempre houve crianças e jovens que foram vítimas da agressividade dos colegas, mas nesse tempo ainda não se falava de bullying. Talvez alguns miúdos sejam, por temperamento ou deficiente educação, mais irascíveis e agressivos, ou mais tímidos e sofredores, mas todos éramos, mais ou menos, sujeitos activos e passivos de bullying. Esses episódios não transcendiam, porque um colega que fizesse queixinhas de outro aos professores, ou aos pais, era imediatamente rotulado de cobarde e, como tal, sofria o ostracismo a que eram condenados os “traidores”.
Alguns pais, para que melhor se defendessem os filhos dos colegas mais violentos, complementavam a sua educação com algumas aulas de artes marciais, o que nem sempre resultava. Queixava-se, com graça, um pai: “Como batiam no meu filho na escola, pu-lo no judo. Agora leva pancada na escola e… no judo!”
Todos os pedagogos estão de acordo sobre a necessidade de recorrer, por razões de disciplina ou de aprendizagem, a acções mais enérgicas. A questão é saber como se deve actuar nessas ocasiões. Uma educação, em casa ou na escola, que seja violenta, não favorece a formação de uma personalidade equilibrada, mas também não é benéfica uma atitude excessivamente permissiva.
É provável que, em tempos passados, a educação dada pela família e pela escola fosse mais enérgica mas, felizmente agora, não só em casa, como também nos estabelecimentos de ensino, recorre-se, em geral, a métodos mais pacíficos.
A historiadora Elaine Sanceau, num curioso artigo sugestivamente intitulado “Educação e pancada”, coligiu alguns interessantes testemunhos sobre a educação portuguesa na Idade Média e não só. Apesar da lenda negra, que ensombra a mal-dita ‘noite de mil anos’, “os filhos de D. João I não foram educados à pancada. No ‘Leal Conselheiro’, D. Duarte confessa que, desde que se lembravam, ‘do dito Senhor Rei [D. João I] nunca em sanha houvemos ferida nem recebemos uma má palavra’.” A brandura do método a que foi submetida a ínclita geração parece ter dado muito bons resultados porque, segundo Fernão Lopes, nunca se soube de rei que tivesse filhos tão excelentes como os de D. João I. A este propósito, pergunta Sanceau: “Causa ou efeito? O belo resultado deve-se antes às qualidades dos educadores, ou à dos educandos? Tanto a umas como a outras, nos quer parecer. É evidente que D. João I e a rainha D. Filipa, sua mulher, foram educadores exímios, mas também o material que tinham entre mãos, para a obra educativa, era muito acima do vulgar.”
D. João II, embora bisneto do Mestre de Aviz, era partidário de uma educação mais musculada, segundo relatos daquele tempo. Numa ocasião em que dois pajens da corte, já crescidos, se envolveram numa rixa, o rei mandou que ambos fossem açoitados. Como os pais de um deles protestassem, por entenderem que o filho era grande de mais para levar açoites, o monarca decidiu então degredá-lo, dez anos, para Ceuta! Protestando de novo os pais, pediram ao soberano que antes castigasse o filho com açoites e foi o que, de facto, o rei se encarregou de fazer, pessoalmente. Também em relação ao seu filho, D. Jorge, Duque de Coimbra, D. João II deu instruções ao seu mestre, Cataldo Siculo, para que lhe batesse sempre que entendesse necessário. Já adulto, o pupilo confessou, curiosamente, que o método lhe tinha sido “muito proveitoso”.
Ao contrário do que seria de supor, os castigos corporais, que em pleno século vinte eram ainda muito frequentes nos colégios ingleses, nem sempre provocavam nos jovens um expectável sentimento de revolta.
Um episódio pode ilustrar como, antigamente, uma justa punição era apreciada. Nos colégios dos jesuítas, que têm merecida fama de excelentes pedagogos, os castigos físicos só eram permitidos até aos 16 anos. Em Pernambuco, em 1574, um aluno do colégio da Companhia de Jesus acusou um colega que, por este motivo, foi castigado. Em vez de ficar desagradado com a delação de que foi vítima, o jovem açoitado ficou tão agradecido ao colega que o denunciou que fez questão de o levar a sua casa e apresentá-lo à mãe, como seu benfeitor! E esta, para retribuir o bem que tinha proporcionado ao filho, ofereceu-lhe uns calções e um gibão de seda!
Esta história, que pareceu inverosímil a Elaine Sanceau, talvez sirva de exemplo para aqueles extremosos progenitores que, de tanto protegerem os seus rebentos, na realidade os prejudicam ou, como se costuma dizer, ‘estragam com mimos’. Assim o disse o Padre Mestre Gaspar Barzeu, missionário flamengo, amigo e companheiro de São Francisco Xavier: “Nunca deixeis de castigar os meninos, porque toda a misericórdia com eles é crueldade.” Era, aliás, desta escola o nosso Rei D. Manuel I, que dizia: “No castigar, tereis sempre este modo: mostrar-vos-ei sempre muito severo, trabalhando sempre mais que vos temam do que vos amem, porque o amor de meninos traz dissolução, e isto por falta de razão.” Como é óbvio, este “amor de meninos”, a que se refere o Venturoso, era aquela condescendência que, ao tudo desculpar aos filhos ou alunos, favorece a sua irresponsabilidade.
Não se pense, contudo, que D. Manuel I era excessivamente severo porque, numa carta de 1509, ou 1510, a Afonso de Albuquerque, ordena brandura no ensino dos jovens indianos, por vezes vítimas da excessiva severidade dos seus mestres: “Nos é dito que os clérigos e pessoas que ensinam os moços cristãos novos o fazem com grande rigor, açoitando-os e apressando-os nisso mais do que a terra e costume dela o sofre e que recebem disto grande escândalo”. Recomenda o monarca que se tenha com eles “outra temperança”, e que os mestres “os não apressem nem castiguem em seu ensino com rigor, mas que mansamente os levem, porque assim se fará mais fruto, e recomendamos que assim o façais fazer”.
A Igreja católica tem uma honrosa tradição académica, que arranca dos seus primórdios: não em vão o seu fundador é o Mestre, e são discípulos os seus seguidores. Na sua bimilenária história, muitos santos educadores se destacaram, como São João Bosco, fundador dos salesianos, e São Marcelino Champagnat, que o foi dos maristas. À sua intercessão recorramos para que, no começo de um novo ano académico, todos os estudantes não padeçam uma injusta violência, nem uma prejudicial benevolência, e, como o jovem Jesus de Nazaré, cresçam “em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2, 52).
P. Gonçalo Portocarrero de Almada * Lisboa

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