Bíblia: o pior cego é o que não quer ver

Se alguém se lembrar de fazer uma leitura enviesada do Evangelho de ontem, então é que proíbem mesmo a transmissão das missas na televisão!…

Da mesma forma que há uma semana a leitura simplista, porque parcial, do texto de S. Paulo levou a equiparar os católicos aos talibãs no desrespeito pelos direitos das mulheres, também uma leitura superficial do Evangelho deste domingo (Mc. 7, 1-8) concluirá que Jesus Cristo promove comportamentos perigosos em tempos de pandemia. Ao condescender com discípulos que não lavavam as mãos antes das refeições, Jesus poderá ser equiparado aos negacionistas dos cuidados que devem ser tidos com a Covid-19.

Na verdade, Jesus não diz em parte nenhuma que não se deve lavar as mãos. Chama sim a atenção para a incongruência dos escribas e fariseus, tão preocupados com a limpeza exterior e tão pouco com a limpeza interior. São, aliás, palavras muito atuais. Tanta preocupação com as aparências – e tão pouco investimento na formação ética e espiritual.

Quem não ler o texto bíblico em profundidade e com a preocupação de o enquadrar no seu contexto, pode dele retirar conclusões bem díspares, ainda que igualmente erróneas. Como a de S. Paulo ser um misógino. Ou a de que biblicamente não se pode sustentar a ordenação das mulheres.

O teólogo jesuíta González Faus sustenta que, “biblicamente, não há obstáculos para o ministério presbiteral da mulher”. Do estudo que fez da igreja primitiva, concluiu que o cristianismo não foi o criador da desigualdade entre homem e mulher, antes pelo contrário: “Foi realmente uma autêntica revolução” na promoção da igualdade de género. Não como hoje desejaríamos, mas um grande avanço para a época.

O texto da polémica é um bom exemplo igualitário do cristianismo, na fidelidade ao exemplo de Cristo. Em todos os encontros de Jesus com as mulheres sucede quase sempre o mesmo: elas são criticadas e rejeitadas pelos homens; são acolhidas por Jesus; e por ele apresentadas como modelo e exemplo.

Vale a pena ler o Evangelho sem preconceitos para descobrir a admirável – e, na época, escandalosa – promoção da mulher feita por Jesus.

 

P. Fernando Calado Rodrigues * Diocese de Bragança-Miranda

 

Texto gentilmente cedido pelo autor e publicado no JN.

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