Interrogação sobre a Igreja e sobre o mundo

1. Antes de mais, queria executar o «preceito» que, no século VII, Santo Isidoro de Sevilha direccionou a São Bráulio de Saragoça.
Ei-lo: «Quando receberes algum escrito do teu amigo, abraça-o como se fosse o próprio amigo, pois esta é a única consolação entre os ausentes».

2. Abraço, pois, com incontida gratidão, o último livro que o querido Amigo — e ilustre Conterrâneo — Padre Anselmo Borges teve a bondade de me fazer chegar.
Abraço-o como nos abraçamos sempre que nos encontramos. Até porque a densidade intelectual da obra como que somatiza a grandeza humana do seu Autor.

3. Esta é uma obra luminosa e fulgurante, extensa e intensa. Tem «logos», «ethos» e «pathos». Combina na perfeição o perene e o actual, a erudição com o tom coloquial.
E opera brilhantemente a «transcorrência» entre o momento que atravessamos e o tempo que nos espera.

4. Trata-se, em suma, de um livro inspirador para todos.
Até porque todos estamos envolvidos, como protagonistas ou simples actantes, nas temáticas que afloram nas suas páginas.

5. Esta é uma sequência de textos que começa com uma interrogação e termina com um ponto que não é final.
Tanto mais porque, a concluir, Deus desponta como «o Futuro de todos os passados, o Futuro de todos os presentes, o Futuro de todos os futuros». Enfim, Ele é o «Futuro Absoluto», expressão tomada de Karl Ranher.

6. Mas é pela interrogação que se inicia esta viagem nunca cessando de pousar em cada «andamento» do percurso. «O Mundo e a Igreja. Que futuro?»
Afinal, é a interrogação que mais nos irmana e traz (pre)ocupados. Ela já vinha de antes da pandemia. Mas tem recrudescido, na sua agudeza, com o decurso da pandemia.

7. A interrogação não ocorre de forma disjunta. Tanto mais que o mundo está presente na Igreja e a Igreja não pode estar ausente do mundo.
É ao mundo que Jesus Cristo nos envia (cf. Mc 16, 15). Daí que, parafraseando Yves Congar, seja impossível uma Igreja sem mundo até para não corrermos o risco de ver surgir um mundo sem Igreja.

8. Todavia, como prelibar minimamente o futuro se a predisposição para pensar o presente é quase nula?
O Autor entrevê sobretudo dois escolhos: o «achismo» e a «sida espiritual».

9. Pouca gente pensa, mas «toda a gente “acha” que…». Geram-se então «novas formas de analfabetismo, desorientação e moleza».
A «sida espiritual» reprime a nossa imunidade «face à mentira, à desonra, à indignidade, à corrupção e à ausência de valores na sua hierarquia autêntica».

10. É preciso «parar, meditar, rezar, ter tempo para nós, para a família, para a beleza, para a contemplação […], para fruir do milagre de viver e estar vivo».
Não deixemos zarpar os horizontes rasgados pela interrogação. E «degustemos», uma a uma, as robustas páginas deste livro!

 

P. João Teixeira * Reitor do Santuário de N.ª Sr.ª dos Remédios * Lamego

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