Será que ainda vamos a tempo? – um ensaio sobre a questão ecológica e a ética dos cristãos

Quando olho à minha volta, neste caso, para o nosso mundo atual e para o que o ser humano foi “capaz” de mudar drasticamente em tão pouco tempo de vida (não devendo ser motivo de orgulho), não consigo deixar de revelar desilusão e angústia perante a nossa sociedade. Talvez seja hipócrita da minha parte escrever no conforto do meu quarto sobre as atrocidades cometidas pelo Homem, que deixaram marcas irreversíveis no planeta e continuam a deixar, e, mesmo assim, não fazer alterações na minha rotina ou adotar hábitos que promovam o bem-estar dos ecossistemas. Mas a verdade é que a responsabilidade ambiental se constrói no seio da comunidade e que a chave para um planeta habitável e ao qual possamos chamar de casa é a união.

Efetivamente, esta vontade de mudar e tentar compensar a Natureza pelos erros do Passado tem de começar em cada um de nós, pois caso contrário se optarmos pela atitude de “sozinho não vou fazer a diferença”, o nosso planeta, essencialmente a Natureza, continuará num ciclo infeliz. Ciclo este equiparável a uma “espiral da morte” que surgiu quando o Homem descobriu que conseguia conjugar a ciência com a técnica e criar muito mais do que imaginara, originando, assim, o fim do mundo inevitável. No entanto, antes de se tomarem medidas há que conhecer e saber em que consiste a Responsabilidade Ambiental. Por definição, esta compreende um conjunto de atitudes, sejam individuais ou a nível das empresas, direcionadas para o desenvolvimento sustentável do planeta. Ou seja, estas atitudes devem ter em conta o crescimento e desenvolvimento económico devidamente ajustado à proteção do meio ambiente na atualidade e, por sua vez, pensando nas gerações futuras garantindo-lhes a sustentabilidade. Deve-se estabelecer uma relação de respeito do ser humano para com a Natureza, de modo a preservar e cuidar o nosso planeta, para, assim, não “caminharmos” para o nosso fim.

Infelizmente, muitos dos pontos de não-retorno já foram ultrapassados e já assistimos a inúmeras extinções das quais tenho vergonha de dizer que fomos responsáveis. Segundo cientistas, a sexta extinção em massa já está em andamento e milhares de milhões de mamíferos, aves, répteis e anfíbios desapareceram em todo o mundo desde o início do século XX, “uma aniquilação biológica” que esteve e continua a estar nas mãos do ser humano. É um facto que estamos a fazer às espécies o que elas nunca fizeram a si próprias e que a nossa ação dominadora foi provocando um desequilíbrio nas delicadas relações de prosperidade entre espécies e ecossistemas, das quais dependemos para viver (algo que a sociedade parece esquecer). É importante mencionar que nós os humanos estamos a ter um impacto muito rápido e direto na extinção de centenas de espécies e que talvez nos devêssemos questionar: Seremos nós o novo meteoro? Igual àquele que foi capaz de extinguir os dinossauros? A resposta para esta pergunta, lamentavelmente, é direta e cruel: Sim. E talvez sejamos piores. Uma prova disso é o caso dos rinocerontes-brancos que sobreviveram 55 milhões de anos e assistiram a terramotos, colisão de meteoros, idades do gelo e que foram um testemunho das inúmeras mudanças históricas no planeta, porém não foram capazes de escapar ao ser humano (Mas afinal quem é capaz? A partir do momento em que uma espécie se torna no nosso alvo, não há lugar na Terra em que a mesma se possa esconder).

Somos o único ser capaz de chegar à moralidade e, ainda assim, parece que não a temos em conta, por vezes, chegando mesmo a ser imorais. Enquanto que outros animais precisam de desenvolver capacidades físicas para mudar a sua vida, nós, espécie humana, apenas necessitamos de uma ideia que passe de geração em geração, isto é, é a nossa inteligência que muda a forma como evoluímos. Se recuássemos no tempo algumas décadas, onde a sobre-exploração não era uma opção, por exemplo, provavelmente, pensaríamos que seria inconcebível que nós, uma espécie única pudéssemos um dia ter o poder de ameaçar a própria existência da natureza selvagem. Natureza esta que é preciso recordar que está longe de ser ilimitada, é finita e por essa razão precisa de proteção. Proteção para a possível perda irreversível que estamos a assistir e contra as práticas devastadoras que caracterizam o nosso atual modo de vida. Só mudando a nossa ação desumana é que recuperamos e mantemos a estabilidade e equilíbrio de que necessitamos, pois caso contrário nem nós seremos capazes de escapar aos nossos erros.

Assim, quando nos colocam a questão: “Será a responsabilidade ambiental uma obrigação moral?”, devemos considerar que a mesma é mais do que uma obrigação moral e, sim, refletir que esta se trata de uma maneira de salvar o planeta de que dependemos. Mais importante ainda, trata-se de nos salvarmos a nós próprios. Se não agarrarmos a oportunidade, agora quase inexistente, de criar um mundo rico e saudável que possa ser o nosso lar, não será difícil de prever o que acontecerá no Futuro que cada vez se encontra mais próximo. Por outras palavras, insensíveis, mas verdadeiras, provavelmente consumiríamos a Terra até a esgotarmos e habitats inteiros começariam em breve a desaparecer juntamente com grandes grupos de espécies. Não haveria nada que nos pudesse parar, visto que os nossos predadores foram eliminados, a menos que nos detivéssemos a nós próprios.

Deste modo, surge a pergunta e reflexão “Será, então, a única solução para os nossos problemas a autoextinção?”. A realidade é que por mais graves que sejam os erros que cometemos, a Natureza vai acabar por superá-los. Contudo, não se pode dizer o mesmo para os humanos. Assim, para continuarmos a recuperar e herdar este mundo deslumbrante precisamos mais do que a nossa inteligência, precisamos de sabedoria, consciência e vontade de nos tornarmos uma espécie em equilíbrio com a Natureza. E se não pensarmos nisso agora, então a resposta ao título deste ensaio será: fomos tarde demais.

Matilde Dias 

Aluna do Ensino Secundário

Colégio de Nossa Senhora da Paz, Porto

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