Ensaios filosóficos: nova rubrica

Haverá Um Sentido para a Vida?

Podemos de facto tomar o partido de algum filósofo nesta questão? Não poderemos complementar as suas opiniões e fazer uma mistura das suas ideias? Talvez. O certo é que algumas das suas posições são contraditórias, pelo que para escrever sobre um sentido para a vida terei de tomar grande parte de uma visão de um dos filósofos de que falámos. Esse filósofo foi Liev Tolstói.

Tolstói defende que a vida só ganha sentido depois de finda. É também isto que defendo. A vida findará pelo que tudo o que alcançámos nela, tudo o que fez com que nos sentíssemos realizados, com um rumo, deixou de existir. Tudo aquilo que dá sentido à nossa vida, segundo Rachels acabou por desaparecer. Uma relação com o nosso melhor amigo, por mais satisfatória que fosse, acaba por terminar quando os dois morremos. Aquele momento em que vi o meu clube ser campeão, comigo seguirá para a sepultura. Os meus ensaios filosóficos, que marcaram aqueles que os leram e que me mereceram inúmeros prémios, esquecidos serão. Nada é eterno e imutável como tem de ser o sentido da vida. Nada? Não será Deus eterno e imutável, e, por isso, o único capaz de nos dar um sentido eterno e imutável também? Se existir uma eternidade, como que uma recompensa pelo que fizemos em vida, não passará ela a ter sentido? Vivemos para que depois pudéssemos alcançar uma eternidade. Ou seja, a vida tem um sentido que é exterior a ela própria. E poderá esta eternidade ser alcançada de outras formas?

A eternidade para além da vida é na generalidade dos casos vista no sentido religioso. Mas por vezes pensamos que é possível imortalizar-nos de outras formas. O próprio Tolstói, D. Afonso Henriques ou Nelson Mandela são exemplos de pessoas que depois de mortas, ainda vivem no nosso dia-a-dia. Os seus feitos permitiram imortalizá-los, ou seja, dar um sentido à sua vida depois de esta ter acabado. Será, portanto, mais fácil alcançar essa imortalidade pelos atos terrenos valorizados pelas gerações futuras? De todo. Esta “imortalidade” não depende totalmente destes atos terrenos. Há por certo grandes nomes da Antiguidade, com feitos realizados de enorme importância que, pura e simplesmente, foram esquecidos. Ou talvez não seja preciso remontar a tempos tão antigos. A História é extremamente seletiva e são os vencedores que a escrevem, pelo que a imortalização por atos terrenos não é nada segura. As nossas obras só são louváveis se alguém as considerar como tal. Num mundo onde cada um tem a sua opinião e a sua perspetiva, não é muito difícil grandes feitos passarem despercebidos ou serem relembrados por períodos de tempo curtos.

A partir disto apercebemo-nos que faz então mais sentido confiar num sentido da vida exterior a esta e profundamente ligado à existência de Deus. Só uma figura omnipotente, omnipresente e omnisciente tem a capacidade de não ser seletiva em relação aos feitos que realizámos em vida. Só esta figura assegura a valorização das nossas ações em Terra. Esta seletividade da História, no entanto, faz com que seja, por vezes, mais fácil a eternidade alcançada através da valorização das gerações futuras do que a eternidade que Deus nos premeia por seguir os seus ensinamentos. Porque, não são estes ensinamentos de excessiva dificuldade de seguir? Talvez. Então não podemos tentar, com o que conhecemos pelos exemplos anteriores, realizar atos que sabemos vir a ser valorizados? Não passa assim a ser mais fácil confiar nas perceções das pessoas? Não. Esta seletividade não tem critérios perfeitamente definidos, e nem sempre se deixa que ela siga os seus critérios usuais. A corrupção, a opressão e os interesses económicos são algo a ter em conta e são difíceis de padronizar. Por isso, mais uma vez digo que faz mais sentido confiar em Deus.

Sem criticar para já o sentido que Deus dá à nossa vida, posso ainda acrescentar outra crítica à imortalização através das pessoas. Essa imortalização é-o sequer? Continuamos assim tão vivos? Se não tivermos consciência e nos é tão indiferente se somos, por exemplo,  cremados ou enterrados porque já não sentimos, não será também indiferente se falam ou deixam de falar de nós? E não poderão estar a lembrar-nos como sendo más pessoas? A nossa memória perdura nas gerações futuras, mas nós não perduramos. Não temos consciência de estarmos vivos. Isto é, se, antes de morrermos considerarmos que vamos ser imortalizados pela nossa memória, podemo-nos sentir perfeitamente realizados, com o propósito da nossa vida alcançado. Mas não poderá isto ser uma ilusão? Será que atingimos esse propósito apenas se pensarmos que o atingimos? E se momentos antes de morrer considerarmos que a nossa memória rapidamente se desvanecerá, apesar de na realidade virmos a ser recordados durante largos anos? Cumprimos o nosso propósito? Realizamo-nos plenamente?

Por todas estas controversas interrogações, podemos, enfim, virar-nos para um propósito exterior à vida apenas e só ligado a Deus. Esta pergunta seria a óbvia a fazer primeiro: mas será que Deus existe? E a verdade é que à primeira vista nos vemos obrigados a responder a esta pergunta para podermos defender o ponto de vista de Tolstói. Existem inúmeros argumentos que defendem a existência de Deus. O argumento ontológico, que nos diz que a ideia de Deus como um ser perfeito traz a si agarrada a ideia da existência desse ser perfeito, pois este só o seria se de facto existisse. Podemos também apontar este argumento como incorrendo na falácia da circularidade, ou até debater se seria mesmo mais perfeito existir. Outros afirmam a inexistência deste Deus omnipotente e plenamente bom com recurso ao argumento que, caso ele existisse, não existiria mal no mundo, algo que sabemos haver. Estes são, por outro lado, contrariados pelos que se servem de Teodiceias para mostrar que é possível conciliar a existência do mal com a existência de Deus. Descartes crê na existência de Deus, enquanto que Albert Camus não. O problema filosófico da existência de Deus até hoje se manteve isso mesmo: um problema. Podemos apelar à fé? De facto, não poderíamos utilizar a fé para resolver este problema no caso em particular em que esta leva um homem a morrer considerando que teve uma vida digna de recompensa da parte de Deus, e, por isso, a morrer sentindo-se realizado? Mais uma vez estar-nos-íamos a aproximar do exemplo anterior, em que nos questionaríamos se, apenas pelo homem se sentir realizado, a sua vida havia tido sentido. Pomos então a fé de lado e permanece o problema por resolver, deixando-nos o problema deste ensaio igualmente por resolver.

Portanto abordemos outras perspetivas a partir das quais possamos retirar algo para corrigir ou complementar a ideia do filósofo russo. Uma perspetiva pertinente parece-me ser a de Pascal e a sua famosa aposta. Enquanto estivermos presos do ponto de vista filosófico pelo problema da existência de Deus, podemos sempre assumir que estamos simplesmente a fazer uma aposta segura. E esta consiste em viver a vida de acordo com os ensinamentos de Deus, esperando depois ser recompensados por isto. Se, de facto, não existir Deus, apenas vivemos a nossa vida de forma regulada e até justa, do ponto de vista da sociedade. Por outro lado, temos tudo a ganhar se de facto Ele existir. Se existir não teve a nossa vida sentido? Não vivemos de certa forma para podermos ser verdadeiramente felizes, depois, na presença de Deus? Creio que sim. É difícil criticar este argumento de Pascal. Podemos contestar que há uma possibilidade de Deus existir e não nos recompensar. A possibilidade de existir e considerar valioso o oposto daquilo que fizemos. Não. Isto não contesta de forma nenhuma o argumento de Pascal. Se estas possibilidades fossem uma realidade, Deus, de certa forma não existia, pelo menos da forma como Pascal o concebia. Isto é, se Deus existisse nestes moldes, seria como se não existisse. Por isso, em último caso podemo-nos servir desta aposta de Blaise Pascal.

Debruço-me agora para a perspetiva para a qual tanto eu como o ilustre Liev cairíamos se não tivéssemos chegado às conclusões que chegámos. A desoladora perspetiva de Thomas Nagel. Para ele, sermos capazes de perceber que a nossa vida não tem sentido seria motivo de regozijo. Nunca poderei admitir nenhuma. Não só é óbvio que o medo e repugnância com os quais viveríamos constantemente por sabermos a vida absurda se imporiam a essa suposta alegria que nos daria conseguirmos chegar a esta conclusão, como essa mesma conclusão não é para mim verdadeira. E ousava eu afirmar que tanto eu como Tolstói nos viraríamos para esta perspetiva porque, de facto, sem a existência de Deus seríamos forçados a olhar para ela. O que sei é que eu com certeza o seria. Tendo já provado a dificuldade em mostrar uma imortalização sem a pessoa desse Deus, eu poria à prova esta teoria de Nagel. Absurdos na vida há relativamente poucos. Vivemos num planeta em que as unidades mais pequenas que constituem essa vida se comportam com sentido.

Não quero acabar com a ideia de que me vou servir da aposta de Pascal para explicar o sentido da vida. Uma aposta, pelo próprio nome que tem, depende sempre de probabilidades. Podemos nós considerar um sentido para a vida que não seja eterno e imutável? Até Nagel nos diz que não. Até o seu absurdo é eterno. Então vamos considerar uma coisa eterna e imutável dependente de probabilidades? Não creio. Se quiserem pensar num mundo sem a existência de Deus eu não quero. Como se regularia este nosso mundo sem Deus? Anteriormente disse que não conseguia mostrar essa existência de Deus. Mas então não faria sentido estar a assumir a perspetiva que assumo. Pois então é isso: façamos um exercício mental. Ninguém consegue inventar nada de novo. Os vampiros não existem, mas, no entanto, são homens com certas características que reunimos doutras coisas que existem. Conseguiríamos nós pensar na perfeição em estado puro se ela não existisse? É que esta não é a junção de nada. A junção de tudo o que é bom seria essa perfeição? Nem todos concordamos naquilo que é bom, mas todos concordamos nessa perfeição pura, porque é simplesmente isso: perfeita, impossível de lhe serem apontadas falhas. Existe, portanto, essa perfeição pura a que nós chamamos Deus.

Está, então, tudo dito. Com a existência de Deus assumo afinal a minha perspetiva, ou melhor, tomo como minha a perspetiva de Tolstói. A vida só terá sentido depois de ter acabado, sendo-lhe esse sentido exterior, porque tudo o que está ligado a essa vida é efêmero, como ela, mas o seu propósito é eterno e imutável. Só esta “recompensa”, a eternidade com Deus, pela forma como vivemos lhe dá uma verdadeira finalidade, uma razão, só com ela somos capazes de silenciar as nossas indagações constantes e dolorosas que nos fazem refletir se na verdade haverá sentido para a vida.

Gonçalo Sousa Soares

Estudante no Colégio de Nossa Senhora da Paz – Porto

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