A pandemia dos abusos sexuais

Os abusos sexuais, sejam eles quais forem, atentam contra a dignidade humana de cada um de nós, sejamos vítimas ou espectadores. As notícias destes abusos baralham os leitores que partilhando a justa indignação recolhem na sua memória a “informação” que fica – religiosos e testemunhas de Deus praticam estes actos, num ambiente tolerado e mudo de que será exemplo a Igreja Católica.

Todos os dias, encontramos na imprensa nacional ou internacional notícias que nos dão conta desta lamentável situação, normalmente relacionadas com comportamentos antigos, como aconteceu esta semana em França. A lista de vítimas é assombrosa (bastaria uma para ser escandalosa), a ferida do pecado é gravíssima.


Abus sexuels : le secret de confession est-il « plus fort que les lois de la République » ?

Président de la Conférence des évêques de France, Mgr Eric de Moulins-Beaufort est convoqué « en début de semaine prochaine » par le ministre de l’intérieur pour avoir estimé que le secret de confession « est plus fort que les lois de la République ». Au-delà de la polémique, ces propos interrogent sur la nature de ce secret et les garanties offertes par la loi pour le protéger.

Abus sexuels : le secret de confession est-il « plus fort que les lois de la République » ?
Mgr Eric de Moulins-Beaufort a réaffirmé que l’épiscopat ne compte pas transiger sur le secret de confession, même pour protéger des mineurs de violences sexuelles – Extracto La-Croix, de 8.10.2021
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Nos últimos anos, nos USA, na Irlanda e noutros países, as respectivas igrejas ficaram abaladas com o escândalo e encontraram maneira de “compensar” as vítimas, num acto sem solução eficaz, dado que não se espera que um pecado destes seja atenuado e abandone a memória de cada um.

O Vaticano, por diversas vezes e ao mais alto nível, lamentou estes comportamentos (individuais) e publicamente pediu desculpas a todos e ao mundo, tendo sido, até agora, a única instituição de dimensão global, a fazê-lo e de verdadeiro coração arrependido. O Papa Francisco tem manifestado, em diversas viagens internacionais, quanto o incomoda esta situação herdada de muitas décadas senão séculos.

Em Portugal, as dioceses criaram gabinetes especiais para tratar deste assunto que exige discrição, recato e reparação.

Contudo abundam permanentes pressões sobre a hierarquia católica por parte de imprensa que considera “insuficiente” a reacção perante este problema que dizem – afecta a imagem da Igreja no seu todo.

Dom Américo Aguiar, bispo-auxiliar de Lisboa, e coordenador da comissão de prevenção e combate aos abusos de menores do patriarcado, admite – segundo informou o jornal Público” o levantamento retrospectivo dos casos de abuso sexual de menores, desde que não seja circunscrito à Igreja Católica. Trata-se de um “crime transversal”, justifica.

As declarações de Dom Américo são assim um desafio aberto a todos os sectores da sociedade que devia ser encarado como uma necessidade estrutural (para quem pretende enfrentar o problema). As reacções a esta declaração – pelo menos as divulgadas na imprensa – sublinham, no entanto,  a ideia de “desvalorização” do problema praticada pelo bispo e, mesmo, falta de coragem “da Igreja” em “pedir perdão”.

Interessa assim à opinião publicada, manter a Igreja barricada na acusação (por mais que peça perdão e identifique as vítimas), para que permaneça a ideia que, neste sector de actividade – que vive a experiência religiosa -, o abuso pela dignidade humana, a violação da intimidade pessoal são comportamentos “aceitáveis”, “tolerados pela hierarquia” e por isso definidores da própria natureza da instituição.

É este o caminho que está a ser percorrido – aqui e noutros países – onde a existência da Igreja Católica constitui um incómodo e onde, sobretudo, os valores imanentes ao cristianismo são o principal obstáculo de um mundo “plano”, baseado numa nova “tábua rasa”, para permitir um “novo mundo” baseado na “desconstrução” das convicções da memória colectiva (ocidental).

Este caminho e esta ideia – acelerado pelas redes sociais – corre a uma velocidade nunca vista, na tentativa de definir a “verdade” da coisa. Sabemos que a verdade é sempre um problema: nunca a alcançamos na busca permanente que fazemos. E também sabemos que na dificuldade de a encontrar apetece desistir, como fez Herodes com Jesus quando lhe perguntou isso mesmo. E por não perceber a resposta aceitou que o mensageiro morresse na cruz.

Hoje a cruz é suportada por cada um de nós, todos vigilantes como a serpente, e por isso não vamos morrer nesta luta higiénica de limpar a nossa memória. Ate porque “é o povo quem mais ordena”.

Arnaldo Meireles, Director Geral de Religiolook

 

 

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