Proteção da Criação: uma mensagem conjunta

Se teremos que anunciar alguma coisa de novo na mensagem conjunta do papa Francisco, Sua Santidade Bartolomeu I e Sua Graça o Arcebispo de Cantuária Justin Welby, é o facto de ter existido esta confluência de posições em defesa da Criação e no modo como está enunciada. Os representantes das Igrejas Católica- Romana, Ortodoxa e Anglicana, acabam a sua mensagem escrevendo: “Cuidar da criação de Deus é um mandato espiritual que requer uma resposta comprometedora. Este é um momento crítico. O futuro de nossos filhos e de nossa casa comum depende disso.” E têm razão! Só que as cúpulas destas tradições assim pensam e advertem os seus seguidores, mas depois levar à prática questões concretas que protejam a criação é muito mais complexo, o determinante não está nesta mensagem – embora se reconheça a sua validade -, mas na compreensão que os fiéis têm da sua atuação na defesa da criação e o que entendem por isso. A mensagem e o seu significado são profundos, mas, de facto, só temos ouvido discursos e depois tudo caminha na mesma. Sei que as hierarquias não podem ser efetivamente autoras no terreno daquilo que escrevem, mas poderão ser mais ativas pelo menos na formação dos agentes de que delas dependem.

Saliento pela sua importância, que, normalmente, não se dá, à questão da Sustentabilidade, e que nesta mensagem possui um ponto específico, que diz: “Na nossa tradição cristã comum, as escrituras e os santos fornecem perspetivas iluminadoras para a compreensão tanto das realidades do presente quanto da promessa de algo maior do que o que vemos agora. O conceito de mordomia – responsabilidade individual e coletiva pelo dom que Deus nos deu – representa um ponto de partida vital para a sustentabilidade social, económica e ambiental. No Novo Testamento, lemos sobre o homem rico que armazena grandes riquezas de trigo enquanto se esquece de sua finitude (Lc 12: 13-21). Conhecemos também o filho pródigo que tira a herança com antecedência, depois a esbanja e fica com fome (Lc.15.11-32). Somos avisados ​​de que não devemos adotar soluções de curto prazo e aparentemente baratas para construir na areia, em vez de construir na rocha para que nossa casa comum resista às tempestades (Mt 7,24-27). Essas histórias nos convidam a uma perspetiva mais ampla e a reconhecer nosso lugar na história universal da humanidade. Mas tomamos a direção oposta. Maximizamos nosso interesse próprio às custas das gerações futuras. Ao nos concentrarmos em nossa riqueza, descobrimos que os ativos de longo prazo, incluindo a riqueza da natureza, são esgotados para benefícios de curto prazo. A tecnologia abriu novas possibilidades de progresso, mas também de acumulação desenfreada de riqueza, e muitos de nós nos comportamos de uma forma que mostra pouca preocupação com as outras pessoas ou com os limites do planeta. A natureza é dura, mas delicada. Já estamos vendo as consequências de nossa recusa em protegê-lo e preservá-lo (Gen.2,15). Agora, neste momento, temos a oportunidade de nos arrepender, de dar uma volta decisiva, de ir na direção oposta. Devemos buscar generosidade e justiça na maneira como vivemos, trabalhamos e usamos o dinheiro, ao invés de ganho egoísta.”

Ora, aí está, não é defendendo uma Criação que imaginamos a nosso modo, que estamos a seu lado, que ela faz parte de nós, mas sim nesta ecologia combinando a economia, o meio ambiental e social – academicamente faltará aqui a cultura, base especial de tudo, mas vamos acreditar que está no social -, que poderemos traduzir a sincera vontade de defender a criação a todo o tempo, de forma que não tenhamos de fazer “Tempos da Criação”. Esta é uma questão da Sustentabilidade, agora trazida, e bem, para o discurso sobre a defesa da Criação, posição central e que normalmente se esquece. É muito difícil defender a Criação com os modelos económicos que conhecemos – daí o Grito dos Pobres-, mas se tal não for apressado não temos qualquer defesa da Criação, mas simulacros, que a todos cai muito bem. O meio ambiental – a ecologia ambiental -, só será definitivamente conservado com uma outra estrutura económica que dê os seus braços ao social e ao cultural.

Enquanto não ouvirmos os Gritos dos Pobres e dos Povos, estaremos surdos ao Grito da Terra, afinal tudo está conectado.

 

Joaquim Armindo  *  Pós Doutorando em Teologia  *  Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental  *  Diácono – Porto

Imagem Agência ECCLESIA

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