A Senhora Humilde

A humildade é, talvez, a virtude mais difícil, pois exige a morte ao nosso eu, tantas vezes orgulhoso, megalómano, vaidoso, autossuficiente, cheio de si, soberbo a agir e a pensar nos outros a relacionar-se com eles. Os estudos, o dinheiro, a vida grandiosa e faustosa pode dificultar muito o crescimento da humildade. Abusar dos dons e dos talentos, sejam eles quais forem, que não são nossos, mas dom exclusivo de Deus, dificulta o crescimento na humildade.  A falta de humildade leva a pensar-nos sempre melhores que os outros, a criticar como são e como fazem, sobressair, dar nas vidas, pisar os outros, desejar grandezas de todos os modos, entrar em jogos de fraude ou de violência. Sem verdadeira humildade não há oração sincera, não há caridade verdadeira, não há capacidade de obediência, não há doação e oblação. O orgulhoso torna-se violento, agressivo nas palavras e nos gestos, violento no trato, sem aceitação dos outros e das suas fragilidades ou simplesmente das diferenças. O amor é humilde, quem ama serve, quem ama ajuda, quem ama tem atitudes simples que nascem da humildade, quem ama procura ser pequeno, servo, não quer dar nas vistas, nem atrair as atenções. Quem ama não quer que a sua mão direita saiba o que faz a esquerda e quer aprender a saber morrer como o grão de trigo para gerar vida de Deus e da graça, no mundo.

 

Maria humilde

Cheia de graça, Nossa Senhora reconhece as maravilhas que Deus fez n’Ela e canta-as em Magnificat, mas não deixa de se considerar a serva humilde. Exatamente porque é serva humilde é que Deus A olhou, A cumulou de dons, e fez d’Ela a Mãe de seu Verbo encarnado. Porque pobre, simples humilde, é que Ela é elevada, exaltada, repleta de dons. Porque humilde é que reconhece que tudo foi graça de Deus n’Ela: “Deus fez em Mim maravilhas”. Maria reconhece com coração humilde que tudo é obra de Deus e do seu amor. Nada é d’Ela, nem o Filho que trouxe e gerou em seu ventre. Tudo é dom. Como humilde a Senhora reconhece a grandeza do amor uno e trino, e sabe cantar os louvores desse amor divino. As grandezas n’Ela são espirituais, pois continua a ser pobre e despojada, a viver em Nazaré, terra de má fama, a ser dona de casa na vida doméstica e no serviço humilde. Não quer elogios, não busca títulos ou “condecorações”, sem vaidades, sem adornos, não Se exalta a Si mesma, mas a Deus e ao amor divino. Sabe ser pobre por fora, no vestir, no viver, no trabalho, e por dentro, no seu Coração Imaculado. N’Ela não há sombra de vaidade, de orgulho, de amor-próprio. Despojada vai viver sempre em humildade, até ao grau máximo junto à Cruz, a Mãe dolorosa, Mãe do Crucificado. Não podia haver mais humildade, pois era o auge da humilhação e da ignomínia para Jesus e para Ela. Só com pessoas humildes ao jeito de Nossa Senhora é que Deus faz grandes coisas. Aos grandes do mundo, da opulência, do dinheiro, da vaidade, do poder déspota, do orgulho destruidor do amor, Deus não se pode revelar, como nos ensinou Jesus Cristo. Desejar ser “pequenino”, simples, humilde e pedir com insistência essa graça, sabendo que a humildade nasce e cresce a par com as humilhações.

Os grandes do Reino

Fátima é escola de humildade. Deus escolheu três crianças simples, pobres, analfabetas. Com Nossa Senhora e com os pastorinhos temos que desejar crescer nesta humildade que atrai Deus e seus dons, para podermos ser instrumentos do Reino, bons evangelizadores, construtores de caminhos de vida e esperança, de santidade. A oração ou os sacramentos que não nos conduzem a ter um coração mais humilde não serão verdadeiros, evangélicos, autenticamente cristãos. Não nos podemos envaidecer porque rezamos muito, porque vamos participar na Eucaristia diária, porque fomos escolhidos para um ofício importante, porque somos solistas que cantamos bem, porque temos talentos variados para muita coisa. Tudo perde seu valor e sua beleza se entra no coração e no raciocínio, o “vírus” do orgulho ou da vaidade. O Reino constrói-se na pobreza, no serviço, na humildade. Maria, a Mãe Humilde, a serva, será nosso modelo, nossa ajuda, nossa companheira e intercessora para alcançarmos a graça da humildade.

 

P. Dário Pedroso * sacerdote jesuíta

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