Novidades antigas: Motim de 21 freiras no mosteiro de São Bento da Ave Maria

O mosteiro de São Bento da Ave Maria, destruído para dar lugar à estação de São Bento no Porto (1888-1900), era habitado por grande quantidade de freiras beneditinas.

Tinha sido fundado por D. Manuel para acolher as freiras de Rio Tinto, Vila Cova, Tuias e Tarouquela. A vida religiosa teve início em 1535. Daria lugar a sucessivas intervenções, sendo a maior devida ao incêndio de 1783 que destruiu quase por completo a igreja. A nova construção seria inaugurada em 1794. Gozava de muitas rendas e a Abadessa apresentava párocos para Escariz, Fajões, Gião, Guisande, Macieira de Sarnes, Mosteirô, Oliveira de Azeméis, S. Pedro de Fins, Rio Tinto, Sandim, Tarouquela (Lamego), Tuias e Valongo. Fotografias de Emílio Biel, publicadas no Tripeiro de 1910 mostram o mosteiro e são conhecidos desenhos de Villa-Nova de 1833.

No início do século XIX o mosteiro vivia horas de decadência que motivam o bispo do Porto, o cartuxo António de São José de Castro (1798-1814), a grande vigilância, como revela a correspondência com o Núncio em Lisboa e com a Abadessa Vitória Maria Corte Real (04-06-1804).

O motim de 21 freiras, ocorrido no início de 1804, no Mosteiro de Ave-Maria, obriga o bispo a intervir de modo decidido, mas desgastante. Em carta ao núncio de 15 de janeiro informa: “Dizem que este Mosteiro não foi visitado há quase trinta anos. Apesar disso há nele um grande número de religiosas bem dignas desse nome, que me têm instado quanto podem, para que as visite e para que evite as grandes desordens, a devassidão e loucura de outras religiosas – que o não são – e que tem chegado a fazer os maiores desatinos; essas são as que se tem unido para se oporem aos meus necessários desejos. Tenho-me visto obrigado a levar este negócio com toda a moderação possível e estou na averiguação do número das que seguem este mau partido. O que tenho mais contra mim é ser a mesma Abadessa quem favorece este infeliz número; não porque as imite nos costumes, porque nem a idade lho permite; mas porque é frouxa e indulgentíssima para com as freiras de menos idade e de nenhum juízo. Eu já abri visita há muito tempo, mas vou com muito vagar, porque a maior parte delas nem sabem o que é visita” (AAV, ANL 29, fasc. 1, ff. 161-161v). Pede ao núncio prévia autorização para nomear sem eleição a Abadessa, mal a atual deixe, para evitar desordens. Antes tinha sido eleita uma “digníssima”, mas as amotinadas fizeram-lhe tantas desfeitas que não aceitou e assim entrou a que protege as desordens (AAV, ANL 29, fasc. 1, f. 148). Considera que a resolução deste problema será importante para outros mosteiros da sua diocese e não só. Dom António fala com clareza e pede ao núncio que também não receie ser franco. Avisa: “V. Ex. cia não poderá fazer juízo da qualidade de mulheres que são as tais tumultuárias. Elas têm protestado de acabar primeiro com o Bispo, depois com as Beatas, que são as boas religiosas e depois com os Padres que dizem ser os confessores” (AAV, ANL 29, fasc. 1, f. 159.) E adianta: “As boas me tem mandado pedir que faça sair as outras do mosteiro e eu estou bem persuadido que isto não pode ter outro algum remédio, depois delas se terem posto em resistência formal, de não se sujeitarem a coisa alguma, que possa pôr freio aos seus vícios, ainda que seja a mais leve providência” (AAV, ANL 29, fasc. 1, f. 159v).

Relativamente às providências para curar as desordens aponta que as 21 freiras, que resistiram às determinações do bispo, sejam privadas de voz ativa e passiva para poder ser eleita uma abadessa competente; que as 21 sejam retiradas dos seus encargos; que se eleja nova abadessa ou uma vigária in capite; que sua Alteza autorize ao desembargador José Ribeiro Saraiva e de comum acordo com o prelado providências em vários pontos “essencialmente necessários para reparar e promover o zelo da casa de Deus.

Alegra-o a escolha, por um voto, de madre Ana Bendita do Cordeiro, a 29 de outubro de 1805. Com surpresa, dá “graças a nosso Senhor, que com tanta facilidade fez o que nós não podemos fazer com tanto trabalho”. Também o núncio escreve à nova abadessa, a 7 de dezembro de 1805, para congratular-se e pedir que acabe com abusos, seguindo conselhos do zeloso bispo. Pede-lhe regularidade pois há intromissão escandalosa de seculares dentro do mosteiro (AAV, ANL 38 (4), ff. 43v-45). O Prelado envia Memorial das irmãs Ana Augusta e Gertrudes Guilhermina Sousa Caldas, de hábito secular, residentes em S. Bento de Ave Maria, cada uma com sua criada, porque eram antigas músicas, ao serviço do mosteiro. Permite-se que permaneçam (ff. 186, 196-197v).

Número de religiosas e seculares do Mosteiro em 1807 (ANL 29 (1) ff. 294-204v): Religiosas 69 todas tem Breve para terem criadas, mas algumas não a tem própria e servem-se com alguma encostada. Seculares decretadas são 16 todas tem licença para ter criada, só uma decretada e duas que estão com Breve a não ter e uma decretada tem licença para duas e Breve para outra que vem a ser três. Creadas de ordem são 33. Encostadas são 50.

Dom António São José de Castro sugere ao núncio várias medidas concretas para, com a sua prudência, serem tomadas (ver mais pormenor: A visão crítica da vida religiosa do cartuxo D. António de São José de Castro (1741-1814), bispo do Porto e patriarca eleito de Lisboa. In SUPPLICANTES Veram Sapientiae: Homenagem a Dom António Montes Moreira. Braga: Editorial Franciscana, 2021, pp. 97-113).

Por D. Carlos Moreira Azevedo * bispo delegado do Conselho Pontifício da Cultura, no Vaticano.

Texto publicado na VP e gentilmente cedido pelo autor.

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