Novidades antigas: Bispo auxiliar do Arcebispo de Braga desterrado no Cabido do Porto

D. José de Bragança, arcebispo de Braga, filho de D. João V e de madre Paula, irmão do rei Dom José que o apresentou, teve como bispo auxiliar Dom José de Oliveira Calado. Quem era este personagem? Nasceu em Estremoz a 15 de dezembro de 1698, filho de Lourenço de Oliveira e Maria Dias Calado. Matriculou-se na Faculdade de Teologia em outubro de 1724 e foi doutor em 17 de junho de 1726. Teve diligência de habilitação do Santo Ofício, fazendo requerimento para Qualificador. Aí se apura que era neto paterno de Miguel de Oliveira, natural de Elvas, e Francisca Ferreira, natural de Estremoz e neto materno de Matias Fernandes e Maria Dias Calado, naturais de Estremoz, todos cristãos velhos. Havia suspeita de falta de limpeza de sangue e o processo dura de 1726 a 1732 (processo PT-TT-TSO-CG.A.008.001.15933).

Era vigário da igreja de Cadima – Cantanhede, em Coimbra, mas consegue ser nomeado cónego magistral da Sé do Porto, a 26 de outubro de 1746.

 

Uma carta ao núncio do P. Pedro da Mota e Silva, Secretário de Estado dos Negócios internos do Reino desde 1736 – cargo homólogo ao atual primeiro-ministro – indica José de Oliveira Calado, para auxiliar de Braga (18-12-1751 – AAV, ANL 10, fasc. 6, f. 66; Processo em ANL 54, ff. 145-153v). Confirmado a 15 de maio de 1752 para bispo coadjutor – assim se chamava na época – foi para Braga a 13 de setembro e ordenado pelo arcebispo a 8 (outros dizem 12) de outubro, na sé bracarense. Assumiu o título de bispo de Mauricastro, antiga diocese da Arménia. Nomeado Provisor e Presidente da Relação habitou em casa junto do Tribunal.

Incompatibilizou-se depressa com o arcebispo nas graves polémicas com o Cabido. Este estava habituado a governar a diocese por treze anos de sede vacante. Havia que pôr cobro a muitos abusos, o que afetava interesses instalados. O arcebispo criou também inimizade com os jesuítas e outras ordens religiosas, proibidos de confessar e pregar em certas casas de religiosas. Esta luta contra irregularidades absorveu o bispo de sangue real. A intromissão de Oliveira Calado nestes assuntos desagradou ao arcebispo, que o fez regressar ao Porto. Quando D. José de Bragança faleceu, em junho de 1756, o Cabido assumiu novamente as rédeas e chamou o bispo de Mauricastro, que então residia no Porto, para Reitor do Seminário e Presidente da Relação e nomeou pessoas que tinham sido afastados pelo prelado defunto. A festa duraria pouco, pois Sua Majestade, a 1 de novembro, indicou para Vigário capitular o dominicano Aleixo de Miranda Henriques, que vigorosamente faz regressar a justa jurisdição e remeteu à origem portuense o bispo Oliveira Calado. De facto, este recebeu ordem superior, a 6 de maio de 1757, para se retirar, no prazo de 24 horas, ao cabido do Porto. Nesta fase de desterro não recebeu côngrua. Só com D. Gaspar de Bragança, outro filho de D. João V, nomeado arcebispo em 1758, lhe seria dada uma esmola mensal. Aleixo de Miranda Henriques seria bispo do Porto, de 4 de novembro de 1770 a 13 de maio de 1771, onde encontraria o antigo cónego expulso.

Alguns serviços foi desempenhando. Conservam-se cartas suas, datadas de 8 de maio e de 5 de junho de 1756, relativamente ao caso do Ordem terceira de Arrifana de Sousa – Penafiel (AAV, ANL 27, fasc. 2, f. 159 – 08-05-1756 ff. 154-155 – Porto, 05-06-1756). Sabemos também que Dom José Oliveira Calado seria bispo sagrante principal de Fr. João de São José Queirós, beneditino e bispo do Pará, natural de Matosinhos, de quem já tive o gosto de escrever a biografia. A ordenação ocorre na Igreja de São Bento da Vitória, a 4 de maio de 1760. Calado residia no Porto, afastado do cargo bracarense, desocupado do serviço episcopal e acusado de ser partidário dos jesuítas. Era, pois, desempregado o cónego do Porto quando presidiu á referida ordenação episcopal. (Ver FERREIRA, J. A. – Memórias archeologico-históricas da Cidade do Porto. Vol. 2, pp. 356-358; PINTO, A. F. – O Cabido da Sé do Porto, p. 81).

Este infeliz alentejano, bispo auxiliar de Braga, com longo canonicato portuense como bispo titular de Mauricastro, faleceu a 2 de dezembro de 1777 e foi sepultado na capela-mor da sé do Porto.

D. Carlos Azevedo  *  bispo e delegado do Conselho Pontifício da Cultura

 

Texto originalmente publicado na Voz Portucalense e gentilmente cedido pelo autor.

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