Novidade antigas: Bispo do Porto que lutou contra dioceses vagas

A demora na nomeação de bispos sempre prejudicou a vida eclesial. Nicolau de Almeida (06-12-1581 – 20-12-1672), portuense de S. Nicolau, cuja igreja quis se reedificasse e ampliasse (primeira pedra a 6 de dezembro de 1671, facto recordado com brasão no arco da capela-mor), formou-se em Cânones em Coimbra. Seria escolhido para representar Portugal na defesa dos seus direitos junto do Papa, pois a Espanha não permitia, após a revolução de 1640, que o reino lusitano, novamente independente, nomeasse bispos.

 

Deixará marcas negativas o arco de tempo decorrido entre 1640, quando D. João IV assumiu o poder, e 1670, quando se retomaram as relações diplomáticas na regência de D. Pedro II e com o novo papa Clemente X. Não existia então um único bispo em Portugal e terras do Ultramar, quando a 3 de junho de 1669 foram apresentados os cinco primeiros bispos.

Além de não se conseguir o reconhecimento papal da legitimidade de D. João IV ao trono, num quadro complexo de política internacional, implicando a Espanha certamente, mas igualmente a França, também se impedia o provimento dos bispados, o que com a demora prolongada de três décadas criava enorme perturbação no decurso da vida eclesial.

As situações religiosa e política encontravam-se muito interdependentes. A violenta pressão exercida pela Espanha em Roma torna dificílima e prolongada a retoma de relações entre Portugal e Vaticano. A Espanha era temida pelo Papa dado o enquadramento europeu agitado pela guerra dos Trinta anos e pelas sequelas das guerras político-religiosas. Esta realidade perigosa e prolongada por 28 anos chegou a resvalar para uma rotura de imprevisíveis consequências.

Após duas outras tentativas desde 1640, no início de 1644, o clero português encarrega o prior de Cedofeita Nicolau Monteiro de apresentar ao papa a situação prejudicial, com já dezassete mitras vagas. Entretanto o papa Urbano VIII faleceu (29-07-1644). Vem Inocêncio X (15-09-1644), ligado à fação espanhola. A nova estratégia portuguesa não logrou melhores resultados. O portuense foi assaltado em Roma, à saída da Igreja de Santa Maria del Popolo, por castelhanos e napolitanos, a 2 de abril de 1645, o que levou à morte um dos servos do Prior de Cedofeita e provocou uma imagem negativa da diplomacia espanhola. Nicolau Monteiro, apesar da disposição positiva do novo papa Inocêncio X, personagem volúvel de quem obtém mera simpatia. Regressaria em 1646, sem nada conseguir. O Rei apresentou-o para bispo de Portalegre e depois em 1655 da Guarda, mas nada se confirmou. Veio para a Colegiada de Cedofeita até ser escolhido para educador dos filhos de D. João IV, renunciando ao Priorado. Quando se sentiu sem forças pediu exoneração do lugar, mas recusou o vencimento e regressou ao Porto. Aqui viria a ser surpreendido com a nomeação para a diocese do Porto, confirmada a 15 de dezembro de 1670 (AAV, Archivio Consistoriale, Proc. Concist. 70, ff. 924-940). Com 89 anos seria ordenado, pelo núncio Francesco Ravizza, recentemente chegado a Lisboa, assistido pelos bispos de Viseu e da Baia. Na igreja dos oratorianos, em Lisboa, a 12 de julho, “com grande felicidade”, é recompensado “este bom velho, aclamado como um santo pelas contínuas obras piedosas que faz”, segundo escreve o núncio ao secretário de estado (AAV, SS Portogallo 25, f. 120, carta 27-07). Entrou no Porto a 26 de julho de 1671 e faleceu a 20 de dezembro de 1672, alguns dias depois de completar 91 anos.

Foi até ao fim na entrega o canonista resistente, que lutou pela ocupação das dioceses vagas, num momento em que reinava em Portugal grande anarquia com religiosos debilitados, cabidos a cometer graves excessos, murmuração do papa, reaparecimento da ideia de um Patriarca que confirmasse os bispos depois de apresentados.

D. Carlos Moreira Azevedo  *  bispo e delegado do Conselho Pontifício da Cultura

Texto publicado na Voz Portucalense e gentilmente cedido pelo autor.

Foto: Rui Saraiva

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