Sentir Romano: a Palavra e a Música (XIII)

Saluti a tutti!

No Evangelho de hoje (Mc 12,38-44) Jesus fala aos seus discípulos sobre a aquela viúva que atirou duas moedas para o Tesouro do Templo, dizendo que “atirou mais do que qualquer outra pessoa… Atirou tudo o que tinha, tudo o que tinha para viver”.

Se formos honestos, a história da viúva envolve-nos profundamente. De facto, mais cedo ou mais tarde, a vida coloca-nos na condição em que também nós devemos “atirar tudo o que temos para viver”. Situações onde todos os nossos “planos de apoio” se esgotam, onde todas as nossas técnicas defensivas estudadas para afastar o que tememos são num instante canceladas e nos encontramos, providencialmente, tendo de enfrentar a realidade, para viver – finalmente – na realidade.

“Deitar tudo o que temos para viver” é tocar a essência das nossas vidas, a nossa maior força juntamente com a nossa maior fraqueza e os nossos maiores medos. É exactamente como apaixonar-se e dar o passo de casar, é tornar-se capaz de viver “para além” das certezas matemáticas, “para além” do “senso comum”, “para além” daquela “sabedoria” enganosa que nunca nos deixa correr riscos, condenando-nos imperceptivelmente a uma vida sem horizontes, sem gosto e sem qualidade.

Ser capaz de “deitar tudo aquilo temos para viver” torna-nos pessoas livres, essenciais, capazes de mudar, de recomeçar, de estar verdadeiramente em contacto connosco próprios.

O Senhor está à nossa espera sem nada, sem aquelas duas moedas que representam todas as nossas falsas garantias e que temos tanta dificuldade em “deitar fora”. O Senhor está à nossa espera “para além”, mesmo “para além” do nosso bem-estar, do nosso equilíbrio alcançado e conquistado, da nossa credibilidade, do nosso prestígio. Ele está à nossa espera “para além” de tudo isto que, se não tivermos cuidado, pode transformar-se na mais subtil tentação de não mudar, no engano silencioso de acreditar num Deus que afinal não existe, não sendo mais do que a nossa própria invenção pobre.

O Gradual da celebração de hoje é retirado do Salmo 140 (Sl 140:2) com o seguinte texto: “Dirigatur oratio mea sicut incensum in conspectu tuo, Domine. Elevatio manuum mearum sacrificium vespertinum” (Deixa a minha oração subir como incenso na tua presença, Senhor, o levantar das minhas mãos, como um sacrifício noturno).

A música em anexo, em canto gregoriano, é retirada do Graduale Triplex publicado em Solesmes em 1979.

A interpretação é realizada pela Nova Schola Gregoriana conduzida por Alberto Turco. A faixa musical pode ser encontrada no CD “Gregorian Chant for Meditation” (Naxos, 2005).

 

Desejo um santo domingo e uma boa semana.

P. Bruno Ferreira * Diocese do Porto * Roma

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