Novos tempos, velhos hábitos

Se “os mesmos caminhos levam aos mesmos lugares”, para que a mudança aconteça, urge caminhos novos. Jesus di-lo por outras palavras: «Ninguém põe um remendo de tecido cru em veste velha, pois o acrescento novo repuxa a veste e o rasgão torna-se pior. Nem se deita vinho novo em odres velhos, senão os odres rompem-se, o vinho derrama-se no chão e os odres perdem-se; pelo contrário, põe-se vinho novo em odres novos, e ambos se conservam». (Mt 9, 16-17)
Talvez seja o cancro maior dos líderes da Igreja: escrevem sobre a necessidade de evangelizar e (sbre)vivem a sacramentar; anunciam um Sínodo para “escutar o povo” e publicam as conclusões a que querem/devem chegar; apregoam a igualdade e fraternidade universais, mas continuam a priorizar opiniões/sugestões oriundas de titulados, grupos de pertença específicos ou sujeitos social, cultural e politicamente afamados; defendem uma Igreja mais caritativa e menos burocrática, mas insistem numa pastoral de programas e organogramas, submissa a cargos e ofícios.
Ao Povo de Deus, que na maioria das vezes vive à margem do sistema, até dá jeito esta ambiguidade. A ausência de uma proposta marcadamente evangélica abre a porta a todo o tipo de respostas: sacramentos sem fé e fé sem sacramento, evangelho sem vida e vidas sem evangelho, estruturas sem pessoas e pessoas sem estrutura, obras sem caridade e caridade sem obras.
A vertigem dos nossos dias está em ler/ouvir os pastores e ver/seguir as suas práticas. Não há rasgo, capacidade/vontade de rutura, inovação, aventura. Não é credível evangelizar, mas insistir em sacramentar; não é razoável definir critérios e servir vontades, caprichos, interesses; não é possível edificar comunidades maduras (ativas, fiéis) sob o critério da estatística (batismos, crismas, casamentos), património edificado ou gostos e partilhas nas redes sociais.
Não foi (só) por acaso que Jesus, na despedida, pediu ao Pai pelos seus, de ontem e hoje: «Eu dei-lhes a tua palavra e o mundo odiou-os, porque não são do mundo, tal como Eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do Maligno. Não são do mundo, tal como Eu não sou do mundo. Consagra-os na verdade; a tua palavra é verdade. Tal como me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo; por eles, Eu me consagro a mim mesmo, para que também eles sejam consagrados na verdade.» (Jo 17, 14-19)
P. António Magalhães Sousa  *  Braga

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