Nota de rodapé de forasteiro

No “Dom Quixote de La Mancha”, um homem de meia-idade resolve tornar-se cavaleiro andante depois de ler muitos romances de cavalaria. Montado no seu Rocinante, resolve ir à luta para provar o amor por Dulcineia de Toboso, uma mulher imaginária. Acompanhou-o também o fiel escudeiro, Sancho Pança, na esperança de vir a ser recompensado pelos seus serviços.
Mudam-se os tempos, repetem-se as estórias, também entre os cavaleiros e escudeiros da Igreja. Sonhar não é pecado e ainda não paga imposto, até quando os processos a decorrer têm respostas antes de ouvir as propostas. Não viria daí mal algum se a realidade não se misturasse com a fantasia, até com um fim trágico para o cavaleiro: longe da estrada, acaba por adoecer e morrer. Já nos momentos finais, recupera a consciência e pede perdão aos seus familiares e amigos.
Também eu sonho com uma Igreja “menos territorial e mais comunidade”, onde os fiéis acorrem para uma experiência viva de comunhão e pertença, alicerçada no acolhimento e compromisso entre todos. E Sanchos Panças dos nossos dias também sonham com o mesmo? No citado romance, não passa de um homem ambicioso que se junta a Dom Quixote em busca de dinheiro e poder. Como construir “comunidade” quando o deveras importante é abrir as portas da fazenda de modo a fazer crescer as receitas?
Também eu sonho, desde sempre, com uma “Igreja menos pastoral e mais espiritual”, centrada na Eucaristia: «Acredito que no nosso tempo e no futuro se recuperará mais a centralidade da Eucaristia: uma nova vivência deste sacramento, recuperando a espiritualidade eucarística nas suas diversas formas da piedade popular. Porque podemos dar o que temos, só levando Jesus bem enraizado dentro de nós O poderemos comunicar aos outros.»
Como fazê-lo se os fiéis há muito se afastaram da Eucaristia e, quando interrogados, apresentam sempre razões ou desculpas? Como celebrar com descrentes sacramentados, alérgicos ao Evangelho e aos valores cristãos? Como valorizar a Eucaristia se o que sobra publicamente (e justifica algumas presenças) são as intenções pelos defuntos e estipêndios devidos? Como viver a “espiritualidade do nós” se grassa cada vez mais o individualismo e narcisismo, também na Igreja?
Também eu sonho “uma Igreja menos burocrática e mais caritativa”, sobretudo quando os sacerdotes se respeitam uns aos outros e não alinham em demagogia e hipocrisia de “passar papéis” sem conteúdo (desleais) para satisfazer o requerente (pagando a taxa devida) e entalar o bento “irmão no sacerdócio”. Também sonho com «a passagem de uma “Igreja dos papéis” (centrada nos certificados) a uma “Igreja dos fiéis” (centrada nas pessoas).» Sobretudo que seja uma (pre)disposição transversal – bispos, padres e leigos – e não apenas recado/dever sempre para o mesmo lado da contenda.
Também eu sonho com uma “igreja que seja menos imposição e mais convicção”. Defendo-o há longos anos, mesmo que haja indicações para não apagar a “torcida que ainda fumega” ou não “quebrar a cana fendida”. O problema da Igreja – carango – nasce daqui: facilitar tudo sem evangelização, sem formação, sem consciência. E as razões não são sobretudo evangélicas… Os propósitos são belos – «A tradição é longa e honrosa. Sem encontro pessoal e motivado com Cristo, corre-se o risco de uma musealização de crenças e rotinas tradicionais a reconhecer como património imaterial.» – na prática, sobram paralelos…
Também eu sonho com a comunhão, a unidade ou, quiçá, conjugar também o neológico “unidar”, sobretudo no sentido original da Oração Sacerdotal de Jesus. Duvido, no entanto, que não passe de mais um vocábulo ao serviço de generais, detentores de títulos mas sem soldados, mais (pre)ocupados em alargar as borlas e filactérias que propriamente em servir o (que resta do) Povo de Deus.
P. António Magalhães Sousa  *  Braga

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