Não se é católico sem comunidade

Vivemos tempos difíceis, também na Igreja. Pessoalmente, sinto-me nos limites, incapaz de aguentar muito mais… A fé “por tradição” (“porque sim” ou “sempre assim foi”), reduzida a ritos, festas e eventos sociais, não faz mais sentido. Hoje precisamos de crentes “por convicção”, não só conhecedores do Evangelho e Doutrina, valores e modos, mas também aptos a dar publicamente razões da própria fé. Nós não nascemos cristãos, tornamo-nos cristãos. Ser batizado e crismado ou fazer a primeira comunhão não nos faz cristãos. Eventualmente, uma boa preparação para estes sacramentos pode ajudar-nos a descobrir e professar a fé. Não se é cristão por ter sacramentos: os sacramentos “apenas” alimentam e fortalecem a fé e a vida cristã.
A primeira tarefa do católico é criar condições para acolher, celebrar, professar e testemunhar/viver a fé. O processo habitual (não o único e, talvez, não o melhor) foi sendo através da preparação e receção dos sacramentos da “Iniciação Cristã”: Batismo, Eucaristia e Confirmação. Como a expressão indica, supõe-se que quem completa este itinerário de fé esteja em condições de viver (praticar) a fé. Infelizmente, diz-nos a longa experiência, este percurso não faz cristãos… poucos o concluem e quem o conclui rapidamente desaparece da Igreja. Ou seja, o itinerário desenhado para “fazer” cristãos comprometidos não passa duma mentira, ficção, artimanha usada para descarregar a consciência dos pastores e responder a exigências burocráticas. Se o processo não resulta, por que razão se mantém?
É tempo de ser Igreja. Ao trilhar os mesmos caminhos seremos inevitavelmente levados aos mesmos desgostos, frustrações, conflitos, desavenças, incoerências, hipocrisia, oportunismo, má-fé. Importa redescobrir o sentido de comunidade, do nós. Não existe a fé individualista, calculista ou sectária. A fé, acolhida no Batismo, só existe no plural, em Igreja: «Esta é a nossa fé, esta é a fé da Igreja que nos gloriamos de professar em Jesus Cristo nosso Senhor», conclui o credo batismal.
Quem se alheia da comunidade; quem aparece apenas à procura de serviços ou papéis; quem anda a saltitar de igreja em igreja à procura do mais fácil (acessível ou encantador) não faz comunidade. Não vai além de um consumidor de produtos/serviços e usa a Igreja como um supermercado ou agência e os seus membros, sobretudo os mais comprometidos (padre, catequistas, coralistas, leitores, acólitos e outros), como empregados/escravos ou funcionários ao seu dispor. Uma relação deste tipo diz muito da estreiteza de vistas (fé) de quem a privilegia. A ausência, distância ou indiferença para com a comunidade, além de sinal de imaturidade espiritual e/ou mesmo falta de fé, revela também sinais óbvios de oportunismo, egoísmo e parasitismo.
Assim como as famílias humanas se reúnem à volta da mesa para celebrar a vida e o amor, partilhar histórias, conversar e encontrar respostas para os problemas e encargos, também a comunidade (família de famílias cristãs) precisa reunir-se semanalmente à volta das Mesas da Palavra e do Pão (=Eucaristia dominical) onde se encontram/reúnem uns com os outros e com Deus, ouvem a Sua Palavra, apresentam os seus pedidos e agradecem pela vida e suas circunstâncias. Não aparecer ou fazê-lo apenas por interesses meramente humanos, materiais ou pessoais é instrumentalizar os sacramentos, atentar contra a comunidade e até destruir/corroer os laços pessoais de afeto, pertença, proximidade, união, conhecimento e apoio mútuos.
Ser cristão – católico – não significa ser perfeito ou ser santo. Porque humanos, todos temos virtudes e defeitos. A perfeição não é condição para ser católico é a meta, o desiderato. Até lá, teremos de conviver com as nossas limitações (imperfeições), por certo num benquisto processo de maturidade e melhoramento individual e gradual. Ninguém tem o direito de exigir perfeição. Ninguém deve pôr de parte a oportunidade de crescer, de se aperfeiçoar. Ninguém ouse pensar que se salva sozinho. A Igreja é sempre um “nós”, uma comunidade de crentes (enraizados em Deus) e fiéis (seres de confiança).
Porque “padre” (pai) e “sacerdote” (dá/oferece o sagrado) gostaria de “fazer par” numa Igreja realmente comunidade: santa e pecadora, centrada em Cristo; ávida de procurar, encontrar e aprofundar as razões da própria fé; a celebrar em família, alegre e unida, à volta do Altar; atenta e solícita na sinalização dos mais frágeis, abandonados, isolados, feridos e cansados; presente e generosa, discreta e cuidadosa na resposta às dores e alegrias, dúvidas, prantos, desnorteios e afogos de todos os seus membros. Se assim não for, estamos todos mal, andamos enganados e a enganar-nos uns aos outros. Se os tempos, de facto, são difíceis, não adiemos, não varramos para debaixo do tapete, não enfiemos a cabeça na areia nem sacudamos a água do capote.
P. António Magalhães Sousa  *  Braga

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