O ícone, pode nos ensinar a ler o Invisível no visível, a Presença na aparência..

Projeto iconográfico da Capela Nossa Senhora de Lourdes e São José

Distrito de Água Boa – Arquidiocese de Maringá – Paraná – Brasil

 

“O ícone, pode nos ensinar a ler o Invisível no visível, a Presença na aparência…” é assim que Jean-Yves Leloup, filósofo e teólogo, define o ícone em sua belíssima obra, “O Ícone, Uma escola do olhar”. Esta arte tão antiga e mística, cheia de símbolos e teologia está ganhando novamente as paredes de nossas igrejas, tão carentes de cores e formas… tão carentes do Belo. Sim Belo com letra maiúscula, porque aqui não falamos daquilo que achamos bonito ou não. Aqui, na igreja, quando falamos do Belo, falamos do próprio Deus, que é a Suma Beleza e o Sumo Bem.

Nestas poucas palavras que seguem vamos tentar expressar a ideia central que envolve a escolha e a execução das pinturas iconográficas da Capela Nossa Senhora de Lourdes e São José, em Água Boa, que faz parte da Paróquia São Cura D´Ars da cidade de Paiçandu, que por sua vez pertence a Arquidiocese de Maringá, no Paraná, aqui no Brasil.

A ideia central das pinturas era poder contemplar no presbitério os padroeiros da capela, mas principalmente Cristo. Nosso centro sempre. Ao Redor de Cristo gira a liturgia, sendo Ele o um grande sol a nos iluminar. Optamos então pela cena da natividade de Jesus Cristo, pois aí estão: Nosso Sol, Jesus; Maria sua mãe e nossa mãe e José seu castíssimo esposo. Todo o restante da iconografia deriva desta cena.

Como a cena principal se passa numa gruta, e Nossa Senhora escolheu também uma gruta para aparecer em Lourdes, escolhemos passagens bíblicas que retratassem de alguma maneira grutas.

Na capela do Santíssimo Sacramento está presente a cena do sepulcro vazio. Após a morte e o sepultamento de Jesus três mulheres que o acompanhavam foram, na madrugada do domingo seguinte a sua morte, ao lugar onde tinham depositado seu corpo. Um sepulcro novo, escavado na rocha, uma gruta. Mas ao chegar lá viram o sepulcro aberto, sem o corpo de seu mestre e um anjo sentado sobre a pedra que estava, anteriormente, fechando a tumba.

As três mulheres são nominadas no evangelho de Mateus, capítulo 16: “Passado o sábado, Maria Madalena, Maria (de Cléofas), mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus.”

Elas são chamadas de “miróforas”. Estas santas mulheres gastaram tudo o que podiam para comprar aromas e mirra a fim de ungir o Corpo de Jesus. Não podiam ter feito isso na sexta-feira pois as prescrições sobre o sábado as impediam, por isso foram no domingo.

As faixas que envolviam o corpo de Nosso Senhor ficaram caídas no chão do sepulcro, essas faixas fazem referência ao nascimento de Jesus: Os anjos anunciaram aos pastores que eles encontrariam o Meninos envolto em faixas. Estas faixam envolvem os mortos, e quando envolvem o Jesus bebê, querem nos dizer que Jesus assumiu nossa humanidade em sua plenitude, ou seja, agora o Deus imortal feito homem, poderia enfrentar a morte, como nós mortais. Já as faixas deixadas no túmulo nos dizem que isso realmente aconteceu: Jesus enfrentou a morte, e a venceu, de uma vez por todas.

Voltemos ao presbitério. “O que o Evangelho proclama, a liturgia celebra, e o ícone pinta na beleza das faces e das cores” – aponta-nos o Arcebispo Joseph Raya da Igreja Oriental.

No ícone da Natividade de Jesus está centrado em uma gruta de uma montanha, na qual se encontra Nosso Senhor envolto em faixas e a Virgem Maria, Mãe de Deus. O Evangelho não nos fala de uma gruta, mas uma velha tradição da igreja, sim, como podemos constatar na obra de Justino, por exemplo. Próximas à montanha, estão outras duas montanhas, como que formando uma. É o mistério da Santíssima Trindade, Três Pessoas em um só Deus! O Deus Trino que não se limita à sua vida interior, “ad intra”, mas que se dirige ao homem, definitivamente através da Encarnação do Filho, obra de toda Trindade! A montanha central abarca todos os personagens humanos do ícone, indicando-nos o alcance geral da Encarnação à toda humanidade. Representa, pois, Cristo, o monte messiânico sobre o qual fala-nos Isaías:

“No fim dos tempos acontecerá que o monte da casa do Senhor estará colocado à frente das montanhas, e dominará as colinas. Para aí acorrerão todas as gentes, 3.e os povos virão em multidão: “Vinde” – dirão eles –, “subamos à montanha do Senhor, à casa do Deus de Jacó: ele nos ensinará seus caminhos, e nós trilharemos as suas veredas”. Porque de Sião deve sair a Lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor.” (Is, 2,2)

O interior da gruta é pintada com o que parece ser um preto, mas, na verdade, é um marrom muito escuro, pois o preto é proibido na iconografia, por simbolizar o mal. Este “marrom ou azul muito escuro”, pois então, é visto também nos ícones da Páscoa, onde tinge os infernos, ao qual Jesus desce, e cujas portas esmaga, para nos salvar. No ícone da Natividade, temos, portanto, já o Cristo que vai ao encontro do homem, até a morte e os infernos, e da natureza obscurecida, para lhes trazer luz e vida. Jesus, aliás, é envolto em faixas, de uma tal forma a remeter ao linho com o qual foi envolvido depois de sua morte, e sua manjedoura se assemelha a uma sepultura. Com seu nascimento, Cristo já inicia sua entrega pela salvação dos homens e sua rendição à morte, morte com a qual venceu a morte. “Foi amarrado em faixas para libertar a humanidade das amarras do pecado” – escreveu S. Cirilo de Jerusalém. Jesus aceitou ter sua nudez escondida por culpa daqueles que se vestiram certa vez com peles de animais; aceitou ter nascido numa gruta, por culpa daqueles que foram expulsos do Jardim das Delícias, o Éden. Com seu nascimento, Cristo já alcança toda humanidade para divinizá-la.

Ao lado do Menino estão um boi e um asno, que representam os pagãos que se voltam para o Deus encarnado, através de suas práticas passadas – o boi remetendo ao culto idolátrico e o asno, à luxúria – enquanto grande parte do Povo de Deus não reconhece o Messias. Lemos em Isaías:

“O boi conhece o seu possuidor, e o asno, o estábulo do seu dono; mas Israel não conhece nada; meu povo não tem entendimento”. (Is 1,3).*

Para a Fonte Batismal escolhemos o tema do Batismo do Senhor. “O ícone do Batismo de Jesus mostra a água como um túmulo de água que corre, que tem a forma de uma escura caverna, que por sua vez é o sinal iconográfico do Hades, o reino dos mortos, o inferno. A descida de Jesus a este túmulo de água a correr, a este inferno, que o envolve totalmente, é a pré-realização da descida ao reino dos mortos: ‘Tendo mergulhado na água, prendeu o que era forte'(cf Lc11,22), diz S. Cirilo de Jerusalém. E S. João Crisóstomo escreve: ‘Mergulhar e emergir são a representação da descida ao inferno e da ressurreição’.” Desse modo belíssimo o Papa emérito Bento XVI nos elucida muitos dos símbolos presente nessa iconografia em seu livro “Jesus de Nazaré”. Mais uma vez a figuração da fonte aparece-nos, mas desta vez, implícita nas águas escuras que representam o rio Jordão. Para os antigos, toda a água sobre a terra advinha de grutas submersas onde moravam os monstros que aterrorizávamos os pescadores da época.

Com sua Mão direita ele nos abençoa e com os dedos ele indica quem ele é. Com os dedos ele faz o tetragrama “IC XC”, que é a abreviatura do nome de Jesus Cristo em grego ΙΗΣΟΥΣ ΧΡΙΣΤΟΣ que em grego medieval se escreve “IHCOYC XPICTOC” (o “Σ” em grego medieval escreve-se “C”). Daqui se usam apenas a primeira e última letra de cada palavra.

No átrio da porta central da capela temos a cena da Aparição de Nossa Senhora de Lourdes a Santa Bernadete numa Quinta-feira, 11 de fevereiro de 1858. Descrevo aqui, um trecho da aparição narrado pela própria Bernadete: “Então, regressei diante da gruta e comecei a tirar os sapatos. Tinha acabado de tirar a primeira meia quando ouvi um barulho como se fosse uma ventania. Então girei a cabeça para o lado do gramado (do lado oposto da gruta). Vi que as árvores não se moviam. Então continuei a tirar meus sapatos. Ouvi mais uma vez o mesmo barulho. Assim que levantei a cabeça, olhando a gruta, vi uma senhora de branco. Tinha um vestido branco, um véu branco, um cinto azul e uma rosa em cada pé, da cor da corda do seu Terço. Então fiquei um pouco impressionada. Pensava que tinha me confundido. Esfreguei os olhos. Olhei de novo e vi sempre a mesma senhora. Coloquei a mão no bolso; ali encontrei o meu Terço. Queria fazer o sinal da cruz. Não consegui encostar a mão na testa. A mão caia. Então, a perplexidade tomou conta de mim. A minha mão tremia. Todavia, não fugi. A senhora tomou o Terço que segurava entre as mãos e fez o sinal da cruz. Então, tentei uma segunda vez e consegui. Assim que fiz o sinal da cruz, desapareceu a grande perplexidade que sentia. Coloquei-me de joelhos. Rezei o Terço na presença daquela bela senhora.”

Ladeando Nossa Senhora estão as letras gregas: MP ØY Abreviatura grega de Mãe de Deus.

 

*Fonte: www.ecclesia.org.br

 

Artista plástico Diácono Anselmo José  *  Maringá, Paraná, Brasil

 

Maringá, 20 de julho de 2021

 

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